Escola Politécnica de São Paulo. Aula de Teoria das Estruturas.
Entra, atrasado, Rogérinho às 8h15 da manhã num dia de setembro. Era a turma de 76.
O professor olha meio atravessado, com ar de piada e seriedade que lhe eram próprios e manda bala:
Aluno, em seu relógio não há corda?
E Rogerinho, com a irreverência e destreza de sempre, responde na lata:
Mestre, não há mola.
As gargalhadas chaquoalharam até os ombros do professor.
[mais uma contada pela Lenise...]
sábado, junho 24
domingo, junho 18
Semana light
Pô, até que essa semana o trampo foi light.
Aé, Breno, porquê?
Faz uns três dias que eu não fotografo presunto. Tá bom.
[Diálogo com Breno Fontes, outro lambe-lambe do Correio Braziliense.]
Aé, Breno, porquê?
Faz uns três dias que eu não fotografo presunto. Tá bom.
[Diálogo com Breno Fontes, outro lambe-lambe do Correio Braziliense.]
sexta-feira, junho 16
Futebol sem foto
Fui cobrir a final do campeonato goiano. Era o clássico Vila X Goiás.
Eu simplesmente o-d-e-i-o o Goiás. Mal podia esperar pelo jogo.
Saí mais cedo da redação para pegar um bom lugar.
Passou uns minutos do primeiro tempo e o Vila marcou um golaço. Pulei, gritei, me descontrolei tanto que ... quanto todo mundo sentou, pensei: Cacete, não fiz a foto!
Um calafrio passou pela minha espinha. Como ia chegar no jornal sem a foto?
Para a minha sorte -- ou meu azar -- o Vila perdeu por 2x1. E acabei fazendo as fotos dos gols do Goiás. Ninguém percebeu que não tinha a foto do gol do Vila.
Aquela foi por pouco.
[Essa quem contou foi o Edilson, fotógrafo do Correio Braziliense.]
Eu simplesmente o-d-e-i-o o Goiás. Mal podia esperar pelo jogo.
Saí mais cedo da redação para pegar um bom lugar.
Passou uns minutos do primeiro tempo e o Vila marcou um golaço. Pulei, gritei, me descontrolei tanto que ... quanto todo mundo sentou, pensei: Cacete, não fiz a foto!
Um calafrio passou pela minha espinha. Como ia chegar no jornal sem a foto?
Para a minha sorte -- ou meu azar -- o Vila perdeu por 2x1. E acabei fazendo as fotos dos gols do Goiás. Ninguém percebeu que não tinha a foto do gol do Vila.
Aquela foi por pouco.
[Essa quem contou foi o Edilson, fotógrafo do Correio Braziliense.]
sexta-feira, junho 9
quinta-feira, junho 8
21 Trombones e 1 novo amor
Já eram mais de nove da noite e o Flávio tocava o interfone. Vambora! O show começa daqui a 30 minutos. Show? Ãhn?
Não tinha planejado ir ao Clube do Choro. Flávio subiu e me disse que não sairia até que eu me arrumasse. Mas, Flávio, você tá solteiro agora, se eu for com você, ninguém vai te dar bola. Não adiantou. Ele insistia com todos os argumentos: você não pode perder o trombonista que vai tocar hoje, o cara é sensacional. Eu fui.
Ao entrar, meus olhos se cruzaram com os dele. De primeira. Uma vez de sopetão e depois várias consentidas. Quando ele começou a tocar - nossa! - adorei, não precisava mais disfarçar que olhava para ele.
No intervalo, ele se aproximou para cumprimentar o Flávio. E fomos apresentados. Minhas pernas já cambaleavam.
***
Não podia deixar passar mais de uma semana, senão a coisa perdia o encanto. Me admirei da artista plástica - tão branquinha e de sorriso maroto - gostar de jazz e música erudita daquele jeito.
Tinha que dar um jeito de nos vermos de novo, pensava. Como os discos em vinil já eram rarirade e ela tinha comentou que colecionava uns clássicos do jazz, aproveitei a deixa para nos encontrarmos.
Fui até a casa dela. E, claro, era parte da promessa, levei meus vinis favoritos: Chat Baker, Anturo Sandoval, JJ Johnson, Ivan Lins, Sérgio Mendes & Bossa Rio e os 21 Trombones de Urbie Green.
Ela tinha todos menos o último. Ainda bem, alguma novidade eu levei. Me surpreendi que tivesse gosto para música parecido com o meu. E completou: eu gosto de ouvir enquanto pinto os meus quadros.
Esse foi o golpe final. Não tinha mais volta, pensei. Aliás tinha sim: ela me pediu os 21 trombones emprestado e eu, depois, em troco, ganhei um novo amor.
[O casal que me contou essa historinha está junto até hoje, já se foram nove anos]
Não tinha planejado ir ao Clube do Choro. Flávio subiu e me disse que não sairia até que eu me arrumasse. Mas, Flávio, você tá solteiro agora, se eu for com você, ninguém vai te dar bola. Não adiantou. Ele insistia com todos os argumentos: você não pode perder o trombonista que vai tocar hoje, o cara é sensacional. Eu fui.
Ao entrar, meus olhos se cruzaram com os dele. De primeira. Uma vez de sopetão e depois várias consentidas. Quando ele começou a tocar - nossa! - adorei, não precisava mais disfarçar que olhava para ele.
No intervalo, ele se aproximou para cumprimentar o Flávio. E fomos apresentados. Minhas pernas já cambaleavam.
***
Não podia deixar passar mais de uma semana, senão a coisa perdia o encanto. Me admirei da artista plástica - tão branquinha e de sorriso maroto - gostar de jazz e música erudita daquele jeito.
Tinha que dar um jeito de nos vermos de novo, pensava. Como os discos em vinil já eram rarirade e ela tinha comentou que colecionava uns clássicos do jazz, aproveitei a deixa para nos encontrarmos.
Fui até a casa dela. E, claro, era parte da promessa, levei meus vinis favoritos: Chat Baker, Anturo Sandoval, JJ Johnson, Ivan Lins, Sérgio Mendes & Bossa Rio e os 21 Trombones de Urbie Green.
Ela tinha todos menos o último. Ainda bem, alguma novidade eu levei. Me surpreendi que tivesse gosto para música parecido com o meu. E completou: eu gosto de ouvir enquanto pinto os meus quadros.
Esse foi o golpe final. Não tinha mais volta, pensei. Aliás tinha sim: ela me pediu os 21 trombones emprestado e eu, depois, em troco, ganhei um novo amor.
[O casal que me contou essa historinha está junto até hoje, já se foram nove anos]
terça-feira, junho 6
Objeto apreendido
Eu não queria comprar aquilo. Era barulho demais para o meu gosto. Mas ela me insistiu que na Copa seria perfeito. Não resisti aos olhos de cachorrinho perdido da Carol. Comprei dela ali mesmo, no caminho do aeroporto, nem deu tempo de colocar na mala.
Mal sabia eu da fria que me metia.
Cheguei em Congonhas e, depois de fazer o check-in, fui barrada na fila do embarque.
Senhora, este objeto é inflamável. Não pode entrar no avião. Vai ter de ser apreendido. Me avisa a moça de voz programada. Nem insisto, não vale a pena. A buzina custou apenas R$ 10 e eu nem queria levar isso para Brasília mesmo, comentei com minha colega que me acompanhava.
A moça de voz programada se compadeceu. Deve ser espírito de Copa. Ela me aconselha a despachar no check-in, junto com as malas.
Lá vou eu correndo. Cheguei no balcão, outra voz programada. Este objeto tem de ir num pacote. Preencha esta ficha por favor. Ok, só mais umas linhas e pronto.
Voltei para a fila de embarque e percebi que todo o avião estava só me esperando. Tudo por uma buzina. Minha amiga Cláudia dá risada quando me vê entrar.
Em Brasília, fico sozinha com as malas rodando. E rio de mim mesma. Se alguém sabe que estou a esperar uma buzina...
Nada. Desisti. Quer dizer, quase.
Estou caminhando para a saída do saguão quando um rapaz me chama: A senhora está esperando um objeto apreendido?
É, eu acho que sim.
Então, venha comigo. Chegando em uma salinha, sou informada de que o objeto terá de ser entregue no meu endereço. Mais uma ficha é preenchida.
Ao sair de lá, sem a minha buzina e com mais de meia hora de espera diante da burocracia, ouço o guardinha cochichar: então, descobriu quem era dono da arma? O outro ri: era aquela moça ali e... não era uma arma, e sim, uma buzina.
Depois de uma semana: a buzina voltou para SP pois foi identificada como objeto apreendido. E me disseram que já estão providenciando (sic) para que ela chegue à minha residência.
Só quero ver.
Melhor, só quero ouvir o berro. E espero que seja antes do dia 13.
[Essa quem me contou foi Fernanda Gomes.]
Mal sabia eu da fria que me metia.
Cheguei em Congonhas e, depois de fazer o check-in, fui barrada na fila do embarque.
Senhora, este objeto é inflamável. Não pode entrar no avião. Vai ter de ser apreendido. Me avisa a moça de voz programada. Nem insisto, não vale a pena. A buzina custou apenas R$ 10 e eu nem queria levar isso para Brasília mesmo, comentei com minha colega que me acompanhava.
A moça de voz programada se compadeceu. Deve ser espírito de Copa. Ela me aconselha a despachar no check-in, junto com as malas.
Lá vou eu correndo. Cheguei no balcão, outra voz programada. Este objeto tem de ir num pacote. Preencha esta ficha por favor. Ok, só mais umas linhas e pronto.
Voltei para a fila de embarque e percebi que todo o avião estava só me esperando. Tudo por uma buzina. Minha amiga Cláudia dá risada quando me vê entrar.
Em Brasília, fico sozinha com as malas rodando. E rio de mim mesma. Se alguém sabe que estou a esperar uma buzina...
Nada. Desisti. Quer dizer, quase.
Estou caminhando para a saída do saguão quando um rapaz me chama: A senhora está esperando um objeto apreendido?
É, eu acho que sim.
Então, venha comigo. Chegando em uma salinha, sou informada de que o objeto terá de ser entregue no meu endereço. Mais uma ficha é preenchida.
Ao sair de lá, sem a minha buzina e com mais de meia hora de espera diante da burocracia, ouço o guardinha cochichar: então, descobriu quem era dono da arma? O outro ri: era aquela moça ali e... não era uma arma, e sim, uma buzina.
Depois de uma semana: a buzina voltou para SP pois foi identificada como objeto apreendido. E me disseram que já estão providenciando (sic) para que ela chegue à minha residência.
Só quero ver.
Melhor, só quero ouvir o berro. E espero que seja antes do dia 13.
[Essa quem me contou foi Fernanda Gomes.]
segunda-feira, maio 15
Márcia e Roberto
Sabe essas pessoas que não gostam do nome? E o rejeitam tanto que só a carteira de identidade parece chamá-los com o nome verdadeiro? Chama-se Jandira e o apelido é Tica. A Eliete vira Lili. O Rosenval quer ser conhecido por Rogério. E daí vai...
A moça que trabalhava lá em casa era Ignácia até os onze anos de idade. Àquela altura, aos 21, ela só respondia por Márcia. Nada pareceu ser obstáculo a isso até que veio o Roberto. O namoro foi dando certo, dando certo até chegar o dia das alianças de noivado.
O drama começou na consciência da Márcia. Ele tinha que saber que o nome dela era outro. Vai ser amanhã, dona, prometo. Era o que me afirmava toda vez que eu perguntava se o Roberto já sabia da Ignácia. Mas nada.
Passaram-se quatro meses desde aquele setembro. Roberto queria abrir uma conta-poupança para fazer o pé de meia. E quando ele sugeriu que fosse conjunta, ela preveu o momento decisivo. Ele vai saber, ele vai pedir meus documentos.
Um calafrio estranho, sem tremedeiras subiu na espinha de Márcia. Ela percebeu que era agora ou nunca. Ai, bem, temos de fazer isso? Abre a conta só no teu nome, vai. Tentou se livrar. Ele estranhou muito. E insistiu.
Outro tremilique interno. Agora, o estômago começou a ser atacado também. Borboletas pareciam voar lá por dentro e ela não conseguia mas esconder o nervoso.
O que te acontece, Márcia? Ele perguntou.
Ela disse na lata: nada de Márcia. Eu tenho outro nome. Nunca te falei. É que tenho vergonha dele, sabe?
Pronto. O furo foi aberto, a bolha explodiu e ela se sentia mais leve.
Ele pasmo, embranqueceu.
Eu também. Mas eu também tenho outro nome.
Sério? Ela falou baixinho, como quem ainda quer acreditar se ouviu bem.
Qual é, Roberto?
Mas me fala o seu primeiro, então.
Ignácia. Minha mãe queria que eu me chamasse Ignácia.
Ele não conseguiu controlar a gargalhada nervosa. E ela, me contou, foi ficando com uma mistura de raiva e curiosidade.
Pára de rir. Pára de rir, Roberto, e me fala o seu logo.
Desculpa, Ignácia, é que quase não dá para acreditar.
Meu nome é Ignácio.
A moça que trabalhava lá em casa era Ignácia até os onze anos de idade. Àquela altura, aos 21, ela só respondia por Márcia. Nada pareceu ser obstáculo a isso até que veio o Roberto. O namoro foi dando certo, dando certo até chegar o dia das alianças de noivado.
O drama começou na consciência da Márcia. Ele tinha que saber que o nome dela era outro. Vai ser amanhã, dona, prometo. Era o que me afirmava toda vez que eu perguntava se o Roberto já sabia da Ignácia. Mas nada.
Passaram-se quatro meses desde aquele setembro. Roberto queria abrir uma conta-poupança para fazer o pé de meia. E quando ele sugeriu que fosse conjunta, ela preveu o momento decisivo. Ele vai saber, ele vai pedir meus documentos.
Um calafrio estranho, sem tremedeiras subiu na espinha de Márcia. Ela percebeu que era agora ou nunca. Ai, bem, temos de fazer isso? Abre a conta só no teu nome, vai. Tentou se livrar. Ele estranhou muito. E insistiu.
Outro tremilique interno. Agora, o estômago começou a ser atacado também. Borboletas pareciam voar lá por dentro e ela não conseguia mas esconder o nervoso.
O que te acontece, Márcia? Ele perguntou.
Ela disse na lata: nada de Márcia. Eu tenho outro nome. Nunca te falei. É que tenho vergonha dele, sabe?
Pronto. O furo foi aberto, a bolha explodiu e ela se sentia mais leve.
Ele pasmo, embranqueceu.
Eu também. Mas eu também tenho outro nome.
Sério? Ela falou baixinho, como quem ainda quer acreditar se ouviu bem.
Qual é, Roberto?
Mas me fala o seu primeiro, então.
Ignácia. Minha mãe queria que eu me chamasse Ignácia.
Ele não conseguiu controlar a gargalhada nervosa. E ela, me contou, foi ficando com uma mistura de raiva e curiosidade.
Pára de rir. Pára de rir, Roberto, e me fala o seu logo.
Desculpa, Ignácia, é que quase não dá para acreditar.
Meu nome é Ignácio.
sexta-feira, maio 12
Uma caneta perdida
Ela é pianista. Sevillana de berço.
Já morou na Suíça, Canadá, França...
Deu aula de piano por todas as cidades que passou ao acompanhar a vida de diplomata do marido.
No Brasil, se encanta com a rapidez do desenvolvimento musical dos talentos de seus alunos.
Depois da entrevista, saio em outro planeta.
Ela sim, deve ter muitas historinhas para contar e já conto aqui outras dela.
Deixo, no banco amarelo, minha caneta roxa.
Ela me devolve com um sorriso contemplativo: Você deixou sua caneta.
Eu respondo: Sempre deixo canetas por aí.
Ela prevê: Já vejo que és artista, artistas sempre perdem as canetas, os dias da semana...
Eu rio comigo mesma. Sou distraída, isso sim.
Já morou na Suíça, Canadá, França...
Deu aula de piano por todas as cidades que passou ao acompanhar a vida de diplomata do marido.
No Brasil, se encanta com a rapidez do desenvolvimento musical dos talentos de seus alunos.
Depois da entrevista, saio em outro planeta.
Ela sim, deve ter muitas historinhas para contar e já conto aqui outras dela.
Deixo, no banco amarelo, minha caneta roxa.
Ela me devolve com um sorriso contemplativo: Você deixou sua caneta.
Eu respondo: Sempre deixo canetas por aí.
Ela prevê: Já vejo que és artista, artistas sempre perdem as canetas, os dias da semana...
Eu rio comigo mesma. Sou distraída, isso sim.
segunda-feira, maio 8
Pechincha na calculadora
Me disseram que não teria outro lugar que a feira para comprar aquele HD portátil de 50 giga de memória em Taiwan. Eu só falava inglês, além do português.
Naquela quarta chuvosa o camarada chinês que me fazia as vezes de intéprete não poderia ir comigo. E era minha última oportunidade. Peguei o táxi com o endereço anotado em desenhos para mostrar ao motorista.
Cheguei a feira com minha capa de chuva amarela muito discreta (!) e uma única recomendação na cabeça: olha não aceite o primeiro número que o vendedor te apresentar na calculadora.
Sim, você não leu errado. Naquele comércio paralelo não havia etiquetas com preços. Tudo era acordado na hora, cara a cara. Com os estrangeiros, a técnica é uma mistra de imagem e ação. Você chega, aponta teu produto e depois faz o gesto internacional de dindin com os dedos. O vendedor pega a calculadora e escreve o preço em dólares. Você pega a calculadora e aponta o seu preço. E o duelo começa. Até que ele balança a cabeça num acordo.
E eu, que sempre detestei essa de pechinchar valores, já fui me preparando para não dar uma de turista otário.
Quando pedi -- não me pergunte como -- por um HD portátil que era lançamento na época, com mais gigas de memória, o rapaz muito contente, o que me deixou cabreiro, foi buscar pois não estava nas prateleiras da frente da lojica. Quando voltou, me deu a calculadora.
Sem preço. E apontou para mim num gesto: e você, quanto está disposto pagar?
Eu gelei. Não tinha noção. E se eu pagasse muito? E se meu valor fosse exageradamente baixo e ele desconfiasse que eu não tinha muito claro o quanto aquilo valia, já que se tratava de um lançamento?
Insisti para que ele me desse um valor. Ele riu marotamente e fez que não.
Decidi não arriscar e comprei outro, de menos memória a um preço muito bom. Não me arrependo. Já sou muito azarado, não queria dar mais chance a acaso.
[essa quem contou foi a Lenise, dona das melhores estórias, mas aconteceu com um colega dela.]
Naquela quarta chuvosa o camarada chinês que me fazia as vezes de intéprete não poderia ir comigo. E era minha última oportunidade. Peguei o táxi com o endereço anotado em desenhos para mostrar ao motorista.
Cheguei a feira com minha capa de chuva amarela muito discreta (!) e uma única recomendação na cabeça: olha não aceite o primeiro número que o vendedor te apresentar na calculadora.
Sim, você não leu errado. Naquele comércio paralelo não havia etiquetas com preços. Tudo era acordado na hora, cara a cara. Com os estrangeiros, a técnica é uma mistra de imagem e ação. Você chega, aponta teu produto e depois faz o gesto internacional de dindin com os dedos. O vendedor pega a calculadora e escreve o preço em dólares. Você pega a calculadora e aponta o seu preço. E o duelo começa. Até que ele balança a cabeça num acordo.
E eu, que sempre detestei essa de pechinchar valores, já fui me preparando para não dar uma de turista otário.
Quando pedi -- não me pergunte como -- por um HD portátil que era lançamento na época, com mais gigas de memória, o rapaz muito contente, o que me deixou cabreiro, foi buscar pois não estava nas prateleiras da frente da lojica. Quando voltou, me deu a calculadora.
Sem preço. E apontou para mim num gesto: e você, quanto está disposto pagar?
Eu gelei. Não tinha noção. E se eu pagasse muito? E se meu valor fosse exageradamente baixo e ele desconfiasse que eu não tinha muito claro o quanto aquilo valia, já que se tratava de um lançamento?
Insisti para que ele me desse um valor. Ele riu marotamente e fez que não.
Decidi não arriscar e comprei outro, de menos memória a um preço muito bom. Não me arrependo. Já sou muito azarado, não queria dar mais chance a acaso.
[essa quem contou foi a Lenise, dona das melhores estórias, mas aconteceu com um colega dela.]
sexta-feira, maio 5
Sobe?
Segundo andar. Sobe.
-- Ai coitada dessa moça, não descansa nem no final de semana. Já são mais de oito da noite e ela ainda está aqui.
Comento eu, a jornalista mais sem noção dessa história. No elevador uma menininha linda e super delicada já vem a meu socorro.
-- Não tia. Essa voz é gravada.
E eu não sei mentir nem disfarcei: ah, que bom. E dei risada.
[essa quem contou foi a Luciana.]
-- Ai coitada dessa moça, não descansa nem no final de semana. Já são mais de oito da noite e ela ainda está aqui.
Comento eu, a jornalista mais sem noção dessa história. No elevador uma menininha linda e super delicada já vem a meu socorro.
-- Não tia. Essa voz é gravada.
E eu não sei mentir nem disfarcei: ah, que bom. E dei risada.
[essa quem contou foi a Luciana.]
quarta-feira, maio 3
Baratas voadoras comem pizzas
O cenário é o de uma pizzaria abarrotada de gente. Há grupos para todos os lados. Gente que veio comemorar o aniversário, amigos confraternizando amigo oculto... Ninguém vem sozinho a uma pizzaria. Quer dizer, nem a dois ou a três.
Naquela bagunça de vozes altas cantando Parabéns pra você, molequinhos vendendo flores e balinhas estivemos lá, todo o time de futebol de salão e mais algumas respectivas namoradas. E a nossa mesa loooonga, daquelas brancas de plástico, ficou do lado de fora da extinta Piano Pizza.
Passaram-se algumas horas -- e muitas pizzas -- até as baratas começarem a cair sem pára-quedas. Sério. Houve uma enxurrada de baratas na nossa mesa. Elas pareciam vir do toldo de plástico da pizzaria, numa habilidade genuína de quem pratica bungee-jump.
Um certo pavor nos desconcertou. O susto foi tão grande que ninguém gritou. Afastamos as mesas rapidamente. Daí a cena mais engraçada: os garçons começaram a correr atrás das baratas desesperadamente.
Quando tudo voltou ao quase-normal e algumas pessoas resolveram continuar a comer, já que os pratos não tinham sido atingidos. Mas eu percebi que começamos a comer com mais pressa, como quem pensa em sair logo dali.
Então veio a voadora. Ela caiu do toldo e num vôo rasante, passou por cima das pizzas, cruzou a pista e foi parar direto na cozinha do restaurante, muita gente viu e foi um alvoroço.
-- Caramba! Olha lá olha lá... e todas as cabeças olhando as baratinhas.
Não me esqueço desta cena. Foi incrível.
Moral da história: jamais peça pizza de rúcula com tomate seco porque o aspecto murchinho e brilhoso do tomate lembra uma baratinha. Que local perfeito para camuflagem!
[quem me contou foi o Bernardo.]
Naquela bagunça de vozes altas cantando Parabéns pra você, molequinhos vendendo flores e balinhas estivemos lá, todo o time de futebol de salão e mais algumas respectivas namoradas. E a nossa mesa loooonga, daquelas brancas de plástico, ficou do lado de fora da extinta Piano Pizza.
Passaram-se algumas horas -- e muitas pizzas -- até as baratas começarem a cair sem pára-quedas. Sério. Houve uma enxurrada de baratas na nossa mesa. Elas pareciam vir do toldo de plástico da pizzaria, numa habilidade genuína de quem pratica bungee-jump.
Um certo pavor nos desconcertou. O susto foi tão grande que ninguém gritou. Afastamos as mesas rapidamente. Daí a cena mais engraçada: os garçons começaram a correr atrás das baratas desesperadamente.
Quando tudo voltou ao quase-normal e algumas pessoas resolveram continuar a comer, já que os pratos não tinham sido atingidos. Mas eu percebi que começamos a comer com mais pressa, como quem pensa em sair logo dali.
Então veio a voadora. Ela caiu do toldo e num vôo rasante, passou por cima das pizzas, cruzou a pista e foi parar direto na cozinha do restaurante, muita gente viu e foi um alvoroço.
-- Caramba! Olha lá olha lá... e todas as cabeças olhando as baratinhas.
Não me esqueço desta cena. Foi incrível.
Moral da história: jamais peça pizza de rúcula com tomate seco porque o aspecto murchinho e brilhoso do tomate lembra uma baratinha. Que local perfeito para camuflagem!
[quem me contou foi o Bernardo.]
sábado, abril 8
Comentários cosmopolitas
Estávamos procurando uma livraria famosa de downtonw Amsterdan. Minhas amigas, uma húngara e outra polonesa, me acompanhavam quando resolvemos parar numa cafeteria para... ir ao banheiro. Típica necessidade de mais outro dia chuvoso de inverno da Holanda.
Esperei as duas do lado de fora e um senhor que tomava conta dos toilettes me abordou, com um português de portugal na lata -- que cara lusitana tenho eu?? -- e me fez um comentário daqueles que se guardam para o resto da vida.
-- Mas que belos esses teus "pêlos" que trazes aqui debaixo de seu nariz.
[pasmem]
Isso mesmo. Quase não acreditei no comentário e caí na gargalhada.
Saimos de lá e já na livraria comentei com as polonesa e com a húngara o acontecido, não podia acreditar até então. Mas a surpresa foi maior.
A reação das minhas amigas foi de pânico, de total desconforto. "I can't believe!!"
A vergonha delas foi maior que a minha! Elas mal podiam me olhar depois e não acreditavam no português e acreditavam menos ainda na minha reação, de dar gargalhadas e ficar de boa.
E ainda completaram: E você nem tem nada aí!!
No dia seguinte, corri para comprar uma cera quente. Mesmo com nada, resolvi tirar o nada que trouxe o 'elogio' do portuga. Just in case...
Na loja, comentei o incidente com a inglesa que me atendeu. A reação dela também me surpreendeu. Educada, virou-se e disse: Vai ver que na terra dele isso é sinal de sedução.
Ri mais ainda depois. As diferenças culturais são mesmo motivo de piadas.
[Essa quem contou foi a Fatinha]
Esperei as duas do lado de fora e um senhor que tomava conta dos toilettes me abordou, com um português de portugal na lata -- que cara lusitana tenho eu?? -- e me fez um comentário daqueles que se guardam para o resto da vida.
-- Mas que belos esses teus "pêlos" que trazes aqui debaixo de seu nariz.
[pasmem]
Isso mesmo. Quase não acreditei no comentário e caí na gargalhada.
Saimos de lá e já na livraria comentei com as polonesa e com a húngara o acontecido, não podia acreditar até então. Mas a surpresa foi maior.
A reação das minhas amigas foi de pânico, de total desconforto. "I can't believe!!"
A vergonha delas foi maior que a minha! Elas mal podiam me olhar depois e não acreditavam no português e acreditavam menos ainda na minha reação, de dar gargalhadas e ficar de boa.
E ainda completaram: E você nem tem nada aí!!
No dia seguinte, corri para comprar uma cera quente. Mesmo com nada, resolvi tirar o nada que trouxe o 'elogio' do portuga. Just in case...
Na loja, comentei o incidente com a inglesa que me atendeu. A reação dela também me surpreendeu. Educada, virou-se e disse: Vai ver que na terra dele isso é sinal de sedução.
Ri mais ainda depois. As diferenças culturais são mesmo motivo de piadas.
[Essa quem contou foi a Fatinha]
sábado, abril 1
Casamento da evangélica amiga minha
Pastor fala demais. Vamos chegar mais tarde na igreja?
Todo mundo da turma de arquitetura topou, claro.
20h30 chegamos e foi o tempo certinho de ver a noiva saindo da igreja, acompanhada do ex-noivo-que-acabou-de-virar-marido.
Me escondi no meio da multidão. Primeira surpresa dentro da minha visão estereotipada: os crentes são pontuais sim.
Ok, sem problemas, o resto da galera - éramos doze mosqueiteiros - nem achou ruim o nosso próprio atraso combinado. Sigamos para festa.
Sem música. Isso mesmo. Não tem música rolando. Choque. Como é que esse povo se diverte?
Continuamos na animação habitual de sempre: piadinhas, conversas em voz alta, risadas aqui e acolá. Não demorou dois minutos para chegarem os olhares reprovadores.
Chega o garçom. Claro que só tem refrigerante.
O mais cara-de-pau ainda pergunta: camarada, você não trouxe uma pinguinha por aí, escondidinha não? O garçom respondeu em meio tom de sorriso educado e seriedade: não pode bebida alcóolica, senhor.
O ambiente era agradável e bem familiar. Até chegar a hora de jogar o buquê. Inacreditavelmente nenhuma das amigas da minha amiga se animou a levantar para esperar as flores voarem e se estapear antes de tentar pegá-las. Será que as evangélicas não querem casar? Me perguntei, de novo, na minha ignorância.
E lá vem ela, com vestido branco, rendado e comportado. Chega na nossa mesa. E de repente todo mundo pára de falar. Pronto, pensei agora ela vai pedir que saiamos da festa.
Meninas, vou jogar o buquê. Diante das nossas caras de tacho, ela insiste: vocês não vão me deixar (com ele) na mão, né?
E ela sai discretamente. Eu não vou. Não quero pegar buquê nenhum. Só faltava essa. As outras nem se abalam de comentar. Buquê o quê?
O frison começa... Vem logo galera, eu vou jogar, hein? Fotógrafo posicionado e nenhuma garota, sim, nenhuma estava lá de pé. Percebi que erámos poucas as solteiras! Me senti rapidamente encalhada. Nossa, que frio na barriga.
Veio a consideração de amiga. Ela não pode ficar ali no meio do salão parada esperando, coitada. Com essa desculpa, me levantei. Algumas vieram comigo, num movimento como uma metralhada de misericórdia. Amigas são para essas coisas, discursei. Combinei com as da minha mesa: a gente fica no fundinho...
Na hora H, todas se afastaram rapidamente. Fiquei quase isolada na frente do "batalhão" de 12 ou 13 garotas (algumas nem tão garotinhas assim). E o buquê, claro, atingiu a minha pessoa. Se fosse bola, juro, matava no peito e repassava.
E para completar o mico da noite... Fui devolver o 'presente' à ex-noiva. Não se faz isso, depois descobri. Mas eu é que não ia levar para casa o buquê que ela entrou na igreja toda emocionada (sim, falei da entrada dela como se estivesse presente lá na hora marcada). Eu disse isso para ela e até que colou. Negociei: eu levo o arranjo da mesa no lugar do buquê, pode?
Ela não ia me dizer que não.
[Essa quem me contou foi a Ludmila.]
Todo mundo da turma de arquitetura topou, claro.
20h30 chegamos e foi o tempo certinho de ver a noiva saindo da igreja, acompanhada do ex-noivo-que-acabou-de-virar-marido.
Me escondi no meio da multidão. Primeira surpresa dentro da minha visão estereotipada: os crentes são pontuais sim.
Ok, sem problemas, o resto da galera - éramos doze mosqueiteiros - nem achou ruim o nosso próprio atraso combinado. Sigamos para festa.
Sem música. Isso mesmo. Não tem música rolando. Choque. Como é que esse povo se diverte?
Continuamos na animação habitual de sempre: piadinhas, conversas em voz alta, risadas aqui e acolá. Não demorou dois minutos para chegarem os olhares reprovadores.
Chega o garçom. Claro que só tem refrigerante.
O mais cara-de-pau ainda pergunta: camarada, você não trouxe uma pinguinha por aí, escondidinha não? O garçom respondeu em meio tom de sorriso educado e seriedade: não pode bebida alcóolica, senhor.
O ambiente era agradável e bem familiar. Até chegar a hora de jogar o buquê. Inacreditavelmente nenhuma das amigas da minha amiga se animou a levantar para esperar as flores voarem e se estapear antes de tentar pegá-las. Será que as evangélicas não querem casar? Me perguntei, de novo, na minha ignorância.
E lá vem ela, com vestido branco, rendado e comportado. Chega na nossa mesa. E de repente todo mundo pára de falar. Pronto, pensei agora ela vai pedir que saiamos da festa.
Meninas, vou jogar o buquê. Diante das nossas caras de tacho, ela insiste: vocês não vão me deixar (com ele) na mão, né?
E ela sai discretamente. Eu não vou. Não quero pegar buquê nenhum. Só faltava essa. As outras nem se abalam de comentar. Buquê o quê?
O frison começa... Vem logo galera, eu vou jogar, hein? Fotógrafo posicionado e nenhuma garota, sim, nenhuma estava lá de pé. Percebi que erámos poucas as solteiras! Me senti rapidamente encalhada. Nossa, que frio na barriga.
Veio a consideração de amiga. Ela não pode ficar ali no meio do salão parada esperando, coitada. Com essa desculpa, me levantei. Algumas vieram comigo, num movimento como uma metralhada de misericórdia. Amigas são para essas coisas, discursei. Combinei com as da minha mesa: a gente fica no fundinho...
Na hora H, todas se afastaram rapidamente. Fiquei quase isolada na frente do "batalhão" de 12 ou 13 garotas (algumas nem tão garotinhas assim). E o buquê, claro, atingiu a minha pessoa. Se fosse bola, juro, matava no peito e repassava.
E para completar o mico da noite... Fui devolver o 'presente' à ex-noiva. Não se faz isso, depois descobri. Mas eu é que não ia levar para casa o buquê que ela entrou na igreja toda emocionada (sim, falei da entrada dela como se estivesse presente lá na hora marcada). Eu disse isso para ela e até que colou. Negociei: eu levo o arranjo da mesa no lugar do buquê, pode?
Ela não ia me dizer que não.
[Essa quem me contou foi a Ludmila.]
As roupas tem história
Foi assim que começou o dia: joguei a frase ao passar de sopetão pelo rapaz: ei, legal sua camiseta de borboletas. A resposta foi uma careta.
Mas, você não gosta? Arrisquei.
Ele não teve dúvidas: a namorada que me deu, daí tem que usar, né?
Logo em seguida, outra roupa personagem. Lá vem o vestidinho de bolinhas da conquista!
Como assim? Ela me pergunta.
Ué, já não se lembra que você o usava quando encontrou seu atual namorado aquele dia que vocês se conheceram?
Mais uma vez: é só elogiar o modelito que a pessoa te conta uma historinha, eu garanto.
Mas de onde você tirou esse sapato verde?
Comprei num bazar, foi só R$ 20. Até hoje não acredito. Toda vez que eu uso alguma coisa diferente acontece.
Sério? E o que foi que rolou hoje?
Tropecei nele, acredita? Quase morri de vergonha no meio da faculdade. Mas vamos sair amanhã para tomar um café.
...
Roupas e pessoas. São marcos e histórias.
[essa coletânea foi adaptada, mas todas aconteceram no mesmo dia]
Mas, você não gosta? Arrisquei.
Ele não teve dúvidas: a namorada que me deu, daí tem que usar, né?
Logo em seguida, outra roupa personagem. Lá vem o vestidinho de bolinhas da conquista!
Como assim? Ela me pergunta.
Ué, já não se lembra que você o usava quando encontrou seu atual namorado aquele dia que vocês se conheceram?
Mais uma vez: é só elogiar o modelito que a pessoa te conta uma historinha, eu garanto.
Mas de onde você tirou esse sapato verde?
Comprei num bazar, foi só R$ 20. Até hoje não acredito. Toda vez que eu uso alguma coisa diferente acontece.
Sério? E o que foi que rolou hoje?
Tropecei nele, acredita? Quase morri de vergonha no meio da faculdade. Mas vamos sair amanhã para tomar um café.
...
Roupas e pessoas. São marcos e histórias.
[essa coletânea foi adaptada, mas todas aconteceram no mesmo dia]
sexta-feira, junho 3
Resgate do Recheio
Mudar essa parte da vida nunca deu muita graça. Andar descalça foi mais legal, mas o que é o pé no chão?
Sentados, aqui vamos procurar outro lugar. Quem esteve presente quer voltar. Quem não apareceu nem vai se arrepender. Eis que surge o juiz: quem corre? quem foge? quem fica estático?
Estamos nós três a relembrar o fato: biscoitos recheados. Sim, quem mandou ela comprar e esconder? Era o verdadeiro convite, o proibido torna-se mais importante do que aquilo que já se tem.
Eu lembro da hora em que chegaram as compras, vi a cor do pacote! Uma súbita alegria. POSSE. Mordida, crunch, crunch, crunch. Ai, mãenhê deixa abrir?
A negativa foi o momento em que começou o motim. Vamos! E a caçula sempre tem o receio. Mas isso não é certo, mamãe nem deixou. A nossa disposição é de soldados em guerra, essa pequena nem esteve no alcance. Juntamos, então a velha idéia. A gente espera e ataca!
Porque a aventura simples de criança sempre parece a MELHOR do mundo? E o biscoito de chocolate, que nem era o mais gostoso vira o alvo, ouro, diversão. Ainda quisera saber achar esta simplicidade em divertir-me, aventurar-me das coisas simples nesta vida que muda mas que continua criança.
Mas voltemos ao tribunal: ele tinha de deixar as cascas do biscoito e comer só recheio? Não sabia que não era para deixar rastros? Que raiva. Raiva, mais raiva. Só não era mais raiva dele porque tinha o medo do que ia sair da boca e das mãos do pai. Nem sabe executar o plano, e vai só como a culpa vai em mim, na mais velha!
E agora, tinha de responder o porquê. Como porquê? Biscoito é biscoito, ora bolas.
A audácia de contrariar a lei muda com o medo da retaliação. O que antes era certeza agora é questionado: e precisava exagerar tanto? E não é assim na vida de adulto? As certezas parecem depois tão furadas ou vazias... Como biscoito de recheado chocolate sem o recheio. E sem culpa da Parmalat.
Não cai a culpa no esquadrão de busca e operações especiais: como vocês encontraram o biscoito??
Procuramos taticamente, silenciosamente, com toda a perícia e silêncio possíveis. Missão de resgate: o que é bom não pode ficar escondido.
Os adultos perdem então a graça. Só vale o que já é convencional. Mas quem garante que esse é o certo? Quem? Agora o tribunal já cessa, e quem tem perguntas somos nós.
Castigo? Eu não quero castigo, prefiro umas bolachas.
Quem mandou falar? Agora voam as Havaianas!
Melhor opinar se e somente se é pedido e quanto antes andar com mais cautela. Mesmo que ainda seja mais legal andar descalça, ainda prefiro as havaianas no pé. E como soluciono: ser quadradinha sem querer ser certinha, ser audaz e prudente? Nem esta louca crônica responde?
A solução pode vir. Mas, antes, preciso de biscoito recheado.
Sentados, aqui vamos procurar outro lugar. Quem esteve presente quer voltar. Quem não apareceu nem vai se arrepender. Eis que surge o juiz: quem corre? quem foge? quem fica estático?
Estamos nós três a relembrar o fato: biscoitos recheados. Sim, quem mandou ela comprar e esconder? Era o verdadeiro convite, o proibido torna-se mais importante do que aquilo que já se tem.
Eu lembro da hora em que chegaram as compras, vi a cor do pacote! Uma súbita alegria. POSSE. Mordida, crunch, crunch, crunch. Ai, mãenhê deixa abrir?
A negativa foi o momento em que começou o motim. Vamos! E a caçula sempre tem o receio. Mas isso não é certo, mamãe nem deixou. A nossa disposição é de soldados em guerra, essa pequena nem esteve no alcance. Juntamos, então a velha idéia. A gente espera e ataca!
Porque a aventura simples de criança sempre parece a MELHOR do mundo? E o biscoito de chocolate, que nem era o mais gostoso vira o alvo, ouro, diversão. Ainda quisera saber achar esta simplicidade em divertir-me, aventurar-me das coisas simples nesta vida que muda mas que continua criança.
Mas voltemos ao tribunal: ele tinha de deixar as cascas do biscoito e comer só recheio? Não sabia que não era para deixar rastros? Que raiva. Raiva, mais raiva. Só não era mais raiva dele porque tinha o medo do que ia sair da boca e das mãos do pai. Nem sabe executar o plano, e vai só como a culpa vai em mim, na mais velha!
E agora, tinha de responder o porquê. Como porquê? Biscoito é biscoito, ora bolas.
A audácia de contrariar a lei muda com o medo da retaliação. O que antes era certeza agora é questionado: e precisava exagerar tanto? E não é assim na vida de adulto? As certezas parecem depois tão furadas ou vazias... Como biscoito de recheado chocolate sem o recheio. E sem culpa da Parmalat.
Não cai a culpa no esquadrão de busca e operações especiais: como vocês encontraram o biscoito??
Procuramos taticamente, silenciosamente, com toda a perícia e silêncio possíveis. Missão de resgate: o que é bom não pode ficar escondido.
Os adultos perdem então a graça. Só vale o que já é convencional. Mas quem garante que esse é o certo? Quem? Agora o tribunal já cessa, e quem tem perguntas somos nós.
Castigo? Eu não quero castigo, prefiro umas bolachas.
Quem mandou falar? Agora voam as Havaianas!
Melhor opinar se e somente se é pedido e quanto antes andar com mais cautela. Mesmo que ainda seja mais legal andar descalça, ainda prefiro as havaianas no pé. E como soluciono: ser quadradinha sem querer ser certinha, ser audaz e prudente? Nem esta louca crônica responde?
A solução pode vir. Mas, antes, preciso de biscoito recheado.
quarta-feira, abril 13
Neto é filho com açúcar
Quero lembrar hoje uma daquelas últimas frases do próprio estilo Darcy de expressar o mundo: "Neto é filho com açúcar." (acho que por isso ela sempre foi gordinha - pelo menos desde que nasci!)
Minha vó nem era só minha, mas a gente [os netos] sempre gritava bem alto:
"a minha vó me de-eu" para ver quem reagia: só sua não ou então "vóóó, eu também queroo".
A verdade é que era. Minha vó era só minha. Todos tínhamos essa certeza. Não só porque ela nos remetia ao ideal esperado de uma avó: abraços, presentes fora de hora, o melhor arroz do mundo e a incrível ceia de Natal. Historinhas para contar, orações a ensinar, palpites prontos para dar. Não era por isso. A vovó era minha e de todos nós.
Cada um que a tinha perto de si via assim: parte sua.
Não que brigávamos por exclusividade. Vovó é que nos soube tornar únicos na vida dela. Parecia que seu coração queria aprender a pulsar no ritmo de cada um. Eu bem sei que ela gostava do meu ritmo coração-escola-de-samba, do coração-Chico da mamãe, do RitaLee da Érica.
Assim ela passou: uma MINHA para cada um: minha filha, irmã, mãe, vizinha, amiga, vó e bem (aí, sim, único caso que o gênero do possessivo muda: meu bem).
Eu digo minha porque o amor que tenho por ela ainda está aqui: vivo e único. Não consigo me ver como sou sem a intervenção dela. Quase tenho certeza que é assim para toda a família. Minha vó era referência, era essa pessoa que congregava todos os corações num só.
Nunca duvidamos disso, mas eu nunca tinha visto assim tão definido. E, agora, parece-me que faz todo o sentido do mundo que a tivéssemos como central de informações: ela sabia de todos porque amava a todos.
Ai de quem não ligava para ela!
E mais uma vez me repito: ela cuidava porque amava. E sofria porque amava. Não desistia dessa vida, suportava as dores porque nos amava.
A vó é minha, eu não abro mão desse possessivo, porque foi Deus mesmo quem quis que assim fosse. Mas esse amor individual não segregava. Essa mãe é minha, e sua, nossa. Sabemos como era completa a sua alegria se a reunião familiar tinha todos os corações presentes: o dela, com certeza, tocava concertos sinfônicos de amor e, claro, cantava também o caos que era alojar o povo inteiro nas festas e feriados.
Hoje, posso já antever vejo seu sorriso maroto e o brilho no olhar dela: de novo, juntos. Não quero desistir de ser com vocês família, porque a minha vó não perdeu tempo de nos deixar sempre unidos, com esse amor gordo, generoso, paciente, que se moldava ao jeito de cada um.
Minha vó nem era só minha, mas a gente [os netos] sempre gritava bem alto:
"a minha vó me de-eu" para ver quem reagia: só sua não ou então "vóóó, eu também queroo".
A verdade é que era. Minha vó era só minha. Todos tínhamos essa certeza. Não só porque ela nos remetia ao ideal esperado de uma avó: abraços, presentes fora de hora, o melhor arroz do mundo e a incrível ceia de Natal. Historinhas para contar, orações a ensinar, palpites prontos para dar. Não era por isso. A vovó era minha e de todos nós.
Cada um que a tinha perto de si via assim: parte sua.
Não que brigávamos por exclusividade. Vovó é que nos soube tornar únicos na vida dela. Parecia que seu coração queria aprender a pulsar no ritmo de cada um. Eu bem sei que ela gostava do meu ritmo coração-escola-de-samba, do coração-Chico da mamãe, do RitaLee da Érica.
Assim ela passou: uma MINHA para cada um: minha filha, irmã, mãe, vizinha, amiga, vó e bem (aí, sim, único caso que o gênero do possessivo muda: meu bem).
Eu digo minha porque o amor que tenho por ela ainda está aqui: vivo e único. Não consigo me ver como sou sem a intervenção dela. Quase tenho certeza que é assim para toda a família. Minha vó era referência, era essa pessoa que congregava todos os corações num só.
Nunca duvidamos disso, mas eu nunca tinha visto assim tão definido. E, agora, parece-me que faz todo o sentido do mundo que a tivéssemos como central de informações: ela sabia de todos porque amava a todos.
Ai de quem não ligava para ela!
E mais uma vez me repito: ela cuidava porque amava. E sofria porque amava. Não desistia dessa vida, suportava as dores porque nos amava.
A vó é minha, eu não abro mão desse possessivo, porque foi Deus mesmo quem quis que assim fosse. Mas esse amor individual não segregava. Essa mãe é minha, e sua, nossa. Sabemos como era completa a sua alegria se a reunião familiar tinha todos os corações presentes: o dela, com certeza, tocava concertos sinfônicos de amor e, claro, cantava também o caos que era alojar o povo inteiro nas festas e feriados.
Hoje, posso já antever vejo seu sorriso maroto e o brilho no olhar dela: de novo, juntos. Não quero desistir de ser com vocês família, porque a minha vó não perdeu tempo de nos deixar sempre unidos, com esse amor gordo, generoso, paciente, que se moldava ao jeito de cada um.
quinta-feira, março 10
sapato marrom
Voa sapato marrom
Para outro lugar distante
Fica em outra calçada
se esconde na mala
vai, se esquiva
a rastelar solado
a apertar o pedal
Voa sapato apertado
fica em outra vitrine
vai, se abre
a ajeitar outros dedos
a esconder outro pé
Voa sapato bandido
Aterrisa em outro chulé
Para outro lugar distante
Fica em outra calçada
se esconde na mala
vai, se esquiva
a rastelar solado
a apertar o pedal
Voa sapato apertado
fica em outra vitrine
vai, se abre
a ajeitar outros dedos
a esconder outro pé
Voa sapato bandido
Aterrisa em outro chulé
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