quarta-feira, março 14

Conto da maçã

"Quando perguntaram a Joaninha o que é que ela queria ser quando fosse grande (há sempre um dia em que um adulto nos faz essa pergunta), ela não hesitou:

- Quando for grande quero ser maçã!

Disse aquilo com tanta convicção que a mãe se assustou:

- Maçã?

A maior parte das crianças quer ser: a) astronauta; b) médica/o; c) corredor de automóveis; d) futebolista; e) cantor/a; f) presidente. Há algumas respostas mais originais: "Quero ser solteiro", confessou o filho de uma amiga minha. Conheço uma menininha que foi ainda mais ambiciosa:

- Quando for grande quero ser feliz.

Mas maçã? Joaninha, meu amor, maçã porquê? A pequena encolheu os ombros: "são tão lindas". Passaram-se os anos e a mãe pensou que ela se tinha esquecido daquilo. Mas não. No dia em que entrou para a escola, a professora fez a todos os meninos a mesma pergunta:

- Ora então vamos lá saber o que é que vocês querem ser quando forem grandes...
Astronauta. Piloto de Fórmula 1. Cantora. Futebolista. Barbie (há muitas meninas que querem ser a Barbie). Médica. Modelo. Actriz. E tu, Joaninha?

- Eu quero ser maçã!

Risos. Os outros meninos começaram a fazer troça dela:

- Maçã raineta! Maçã raineta!...

- Se a Joaninha pode ser uma maçã, senhora professora, eu quero ser um avião...

Ela nem fazia caso. Quando crescesse havia de ser uma maçã, sim, uma maçã verde, luminosa, tão perfumada como uma manhã de Primavera.
Poucas vezes, porém, conseguimos cumprir os nossos sonhos. Joaninha transformou-se numa mulher bonita, estudou, e fez-se professora. Era uma boa professora. Só quem conseguisse olhar para dentro dela poderia saber que, bem lá no fundo do seu coração, Joaninha sentia ainda aquela grande vontade de se tornar maçã. O tempo passou - o tempo, aliás, está sempre a passar, nós é que nem sempre damos pela sua passagem. O tempo passou, portanto, e Joaninha envelheceu. Não casara, não tinha filhos, envelheceu sozinha.
Foi numa tarde de Outono. As árvores tinham perdido as folhas. O sol, cansado, com aquela cor macia que tem o mel, desaparecia no horizonte. Joaninha estava a dormir, sentada numa cadeira de baloiço. na varanda da sua casa, quando apareceu um anjo e a levou.

Joaninha abriu os olhos e viu o que já antes via com os olhos fechados: os anjos passeando num grande jardim, os peixes flutuando no ar, juntamente com os pássaros, e aquele velho de barbas brancas, ao seu lado, sorrindo como só Deus sabes sorrir.

- Meu Deus - perguntou-lhe - porque não me deixaste ser maçã?

- Ser maçã é difícil, Joaninha - disse-lhe Deus. É preciso crescer muito para se ser uma boa maçã. Tu cresceste. Agora, sim, serás maçã.

Alguns anos depois, um menino descobriu no pomar da casa dos seus avós uma maçã de um brilho intenso. Cheirou-a: cheirava a manhãs lavadas, cheirava a Primavera, era um cheiro que se colava aos dedos. O menino comeu a maçã e sentiu-se feliz. Naquela tarde disse à avó:

- Sabes, acho que quando for grande quero ser maçã!"
Um conto do português/angolano: José Eduardo Agualusa.

segunda-feira, março 12

Devagar é que se entende...

Não sei o porquê, mas é comum, ao "estarmos" estrangeiros em países de línguas que desconhecemos, falarmos mais dee-vaa-gaaariinho, abrindo bem a boca, como se isso fosse dotar automaticamente o nativo de um tradutor portátil (e invisível) que conseguisse nos decifrar.

Depois da dispensável introdução, que tira a graça da historinha, ei-la:

Mãe de 4 filhos, viúva, 57 anos decide ir para a Alemanha. Vai visitar o primogênito, mas prefere ficar em hotel para evitar conflitos com a nora bagunçenta (bem que nesse aspecto ela queria que Helga parecesse mais germânica).

Passa o primeiro dia muito bem obrigada no hotel. Café, leite e pães são uma linguagem universal no café da manhã.

No terceiro e último dia, faltava sua camisola. O costume de deixá-la, dobrada, debaixo do travesseiro deve ter sido a causa do sumiço.

Nesse mesmo instante, entra a camareira, com ares de atrasada. Leva um susto ao perceber a velhinha enxuta ainda em seu quarto. A hóspede pensa, um pouco medrosa: o diálogo -- em alemão??socorro! -- vai ter de acontecer. Em inglês, não. Eu não vou falar essa língua ignóbil.

Então, vira-se para a moçoila e diz:

-- Vooo-cê por aaca-so nããão viu um-ma ca-mi-so-li-nha por a-quii?

Mal havia terminado de falar e a camareira pôs-se a inundar os olhos.
A viúva viajante não entendeu nada.

E repetiu:

-- Nããão choo-rees. Nãão voouu fii-caar braa-va. Só proo-cu-ro uma ca-mi-so-li-nha. De dor-mir (fez o gesto com as mãos em palma ao lado da bochecha direita), voo-cê viu (apontou os olhos)?

A menina chorava copiosamente. Mas levantou a mão. Fez que ia falar.
Não conseguia.

Resolveu esperar, com um sorriso leve, meio desconcertada.

-- É que eu (shhhgllt) sou brasileira. Bra-si-leeei-ra. Faz muito tempo que (...) não ouço o Português.

quinta-feira, março 8

uma maçã

é uma delícia!

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Alguém sabe qual é a historinha que marcou a maçã como ícone para presente das professorinhas de plantão?

Me conta, vai !

a escritora- parte I

Então, ela abriu o caderno e pôs-se a escrever.
Mesmo que já não pudesse mais lhe contar, ela precisava daquilo.
Na mesa, as pontas do cigarro que caíam do cinzeiro, seus anéis e pulseiras se misturavam com os papéis e sua máquina de escrever.
Ela gostava daquele barulho.

Parecia-lhe que toda a sua turbulência saia-lhe da cabeça naquele tectectec.

As horas passaram lentamente.
Outra vez, pensou, outra vez.

E as palavras lhe faziam greve. Outra vez.

quarta-feira, março 7

Alguém, neste instante, em algum lugar...

-- Acorda atrasado pois o relógio não tocou (ou ele não ouviu);

-- Pede um caffélate numa loja da Starbucks - que vai ser derramado antes de entrar no metrô;

-- Atende o celular no meio da sala de aula;

-- Prende a respiração para aprender a mergulhar, antes de se aventurar a mais de pés debaixo do oceano pacífico;

-- Decide que chegou a hora de fazer uma dieta;

-- Sai para a rua para dirigir, indo para um lugar desconhecido;

-- Comenta com a colega que o sapato está apertado

-- Acaba de perder o ônibus da escola;

-- Deixa cair o MP3 player na rua sem perceber;

-- Corta o cabelo de uma cliente que acabou de terminar o namoro;

-- Tira as lentes de contato por causa de uma alergia;

-- Está escovando os dentes depois do almoço, mas não passa fio dental;

-- Pensa que a vida não vale a pena;

-- Corre no parque da cidade, desviando de um cachorro perdido;

-- Atravessa a Av Paulista para um almoço de negócios;

-- Vê um filme muito chato, para se arrepender depois;

-- Toma um sorvete gelado para aliviar o calor;

-- Toma um chá de framboesa para ler um livro e esquecer dos - 25ºC que fazem lá fora;

-- Salta de pára-quedas pela primeira vez;

-- Não está olhando para uma tela de computador;

-- Descobre uma doença grave;

-- Recebe a notícia de uma promoção;

-- Começa a escrever uma receita para um paciente sem olhar-lhe nos olhos;

-- Reza pacificamente numa igreja;

-- Ora, cheio de dor, em um velório;

-- Bebe outro copo de água antes de fazer uma endoscopia;

-- Apara a grama do quintal;

-- Compra uma jaqueta jeans na Gap;

-- Usa filtro solar para sair na rua;

-- Prega um outdoor sobre óculos de sol;

-- Põe o boné para continuar a colher as jaboticabas;

-- Rega as plantas de seu jardim de inverno;

-- Recolhe o lixo de toda uma vizinhança;

-- Dirige um caminhão que vai buscar carnes em um frigorífico;

-- Desliza numa piscina, treinando para o PAN;

-- Fotografa um político que está dando uma entrevista;

-- Adianta o jantar para receber os amigos em comemoração à sua formatura;

-- Lê a página 39 do Harry Potter e a Ordem da Fênix ...

sexta-feira, janeiro 12

Lost

Ela tinha tudo que precisava à mão: carro equipado com GPS, direções tiradas do sensacional mapquest. Agora, na hora do terror de ler as placas Exit 99 straight, Exit 97 left only a coisa é um pouquinho mais complexa. Um probleminha entre o voltante e o assento da van Grand Vouyager da Chrysler.

Então, escolheu a saída. Errada. Não percebeu, pois o Chico cantava dentro do carro para acalmá-la antes de ficar nervosa. Passou bastante tempo e nada da placa cinza aparecer de novo. De repente tudo parecia distante. Parecia caminho com cara de perdido. Sabe como é: quando você se perde a rua parece fazer cara de perdida para você.

Ela olha de novo o mapa, passa por uma indicação Vermount. Pronto. O frio da espinha - bem pior que os -2ºC que faziam lá fora - subiu-lhe com a certeza de estar errada e a incerteza de saber consertar. Onde há o retorno? E retorno para onde?

Olho no celular: low battery.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!

Pronto, o coração se desespera antes da hora.
Cala a boca, Chico Buarque! Depois você diz amanhã ninguém sabe.

Ela sai do carro para respirar. Pensa, pensa, olha ao redor... O carregador do Jonas! Sabe lá onde esse menino largou aquele negócio que carrega o celular no acendedor de cigarro. Procura pelo aparelhinho, mas não encontra.

No auge do desespero, senta no meio-fio e começa a chorar. O frio nem importa mais.
COMO vou sair daqui?

Passam-se uns longos treze minutos.
Um carro azul marinho muda de faixa, passa para a terceira da free-way, reduz de 90km/h para 30km/h, vai parando com pisca alerta.

Sai de lá um senhor meio gordinho lhe pergunta: May I help you, madam?
Ela olha para ele: Whati?

Chora mais. Não consegue nem entender, que dirá explicar.
Ela pega o mapa, mostra o endereço e aponta: here! here! entre soluços.

Ele se enternece, diz algo, e volta para o carro.
Ela entende que vai segui-lo.

E o senhor gordinho a leva de volta, um desvio de 15km na sua rota...
Ela agradece, contente por saber dizer Thank iuú! Thank you!

****

quinta-feira, janeiro 11

Férias, de novo no supermercado

Foi comprar gelatina. Dizem que prende o cabelo até debaixo d'água.
Mas não era para alisar os cabelos, era para aquela receita gostosa mesmo. Isso acontece sempre - a vó se dá na conta de que falta um ingrediente e lá vai ele para o mercado.

É que ele não era um menininho reclamão. Nunca havia sido.
Ia porque gostava de ver gente, mesmo que o desenho mais legal do mundo tivesse passando na tevê.

Gelatina colorida: tinha de ser de cor roxa.

As prateleiras já lhe pareciam mais altas. Ele costumava ir de bicicleta para o mercado, mas hoje foi de moto. Há coisas de família que não mudam mesmo. Nem passando nove, dez, vinte e três anos. No caso do Marcelo foram 19, na verdade.

Agora ele era publicitário. Que diferença ver os cartazes do mercado do seu Luis! A letra cursiva, escrita a pincél e guache por cima da cartolina (será que dava um A3 ou um B4 ?) já lhe faziam pensar em outras coisas. Não curtia mais ficar zanzando para ver as amostras grátis ou ficar esperando o pãozinho sair quentinho. Duro era não querer sofrer do próprio "veneno".

Diante da prateleira, a famosa gelatina.
Depois, a fila única do caixa ainda sem leitura de código de barra.

Rapidamente se distrai.
Vai olhando os moradores, acena com a cabeça para alguns. E nada parecia diferente. Isso não lhe incomodava. Da altura de seus 28 anos, Marcelo ainda era o Pernalonga. Quase campeão de basquete, agora um pouco menos traumatizado de suas longas canelas. O tamanho lhe era uma marca tão própria que as pessoas lhe reconheciam de costas e gritavam pernalonga!

Desta vez, a voz era parecida.
Se vira, e vê que vem sorrindo a ele Janaína.

Ah, tem coisas que mudam, sim, pensou.
Ainda bem.

sexta-feira, dezembro 1

Descanso

Ele queria deixar tudo explodir junto com sua cabeça.
Queria um refresco.
Pensou em ouvir uma música.

Não.
A cabeça dói demais.

Pensou em ler, ligar a tevê.

Cansado demais.

Abriu a gaveta do escritório e sorriu.
A foto dela estava lá, no meio da papelada.

E encontrou o descanso no seu olhar.
Quem precisa de sinfonia?
Descansou olhando o seu olhar, o dela.
Não precisava mais nada.

E voltou a trabalhar, aliviado, sem tomar neosaldina.

quinta-feira, novembro 23

Agradecimentos

Quantas palavras obrigado já saíram sem valer nada? E quantas oportunidades de agradecer foram desperdiçadas? Neste post, reconsidero os muito obrigada que nunca dei... e faltaram!

Quero agradecer ao Zico pelo amor à camisa que deu ao meu coração cores rubronegras.
Quero agradecer ao meu avô paterno por ter muitos muitos pacotinhos de figurinhas -- sempre -- para meus álbuns serem completados mais rapidamente.
Quero agradecer a minha única professora de natação, Patrícia, que me ensinou todos os quatro nados com perfeição de detalhes e ao mesmo tempo me ensinou a gostar de nadar.
Quero agradecer à minha única professora de ballet, que me fez desistir.

Quero agradecer ao CESPE, que dificultou a minha entrada no vestibular, elaborando provas cada vez mais difíceis, me deixando mais tempo no cursinho para pensar na vida e ver que Medicina não era mesmo MESMO a minha praia, Ufa!
Quero agradecer ao meu cabelo, por sempre se comportar bem.
Quero agradecer ao meu , por ser feio feio muito feio, além de grande.

Quero agradecer ao Meu Primeiro Gradiente por ter me feito a criança mais feliz naquele natal.
Quero agradecer ao meu avô materno, que está no Céu, que me empurrou a andar de bicicleta sem rodinha pela primeira vez, mesmo sabendo que eu ia cair.
Quero agradecer ao meu 'tiomaisbonito' que me levava com carinho às aulas de catequese.

Quero agradecer ao meu primo, pelos filmes de terror que alugava nas férias e eu fingia detestar mas curtia muito.
Quero agradecer à minha prima, por ler muito nas férias e não me dar bola e me deixar sem alternativas que ler muito também junto com ela.

Quero agradecer à minha amiga carioca que sempre me recebeu na casa dela com vários tipos diferentes de geléia, pães de forma variados, muiiito requeijão congelado e... todo o guarda-roupa à disposição.
Quero agradecer ao meu ortopedista que consertou meus pés dos 2 aos 7 anos.
Quero agradecer à prof. Marta, de História da 8a série, que me colocou à frente do projeto de teatro da turma e me fez descobrir um protótipo de roteirista-produtora em mim.

Quero agradecer aos produtores do Sítio do Picapau Amarelo e do Mundo de Beackman.
Quero agradecer a Fernando Pessoa, pelas vezes - muitas - que me fez perder o ponto de descer do ônibus.
Quero agradecer ao metrô de Washington, por sempre me levar aonde eu queria ir (quando não me perdia de linha, claro)
Quero agradecer ao(s) carteiro(s), sim, todos, que me traziam as cartas boas e as cartas tristes.

E... quero agradecer à minha falecida Vó Darcy por todas as balinhas de coco que ela fez e por fazer questão de reunir toda a família no Natal e por sempre convencer o vovô a se vestir de papai noel para entregar os presentes para nós.

[e ao pai, à mãe, ao irmão, à irmã: agradeço por tudo e sempre :) ]

Corte, parcial

Ela sentou na cadeira e esperou ser "levantada". Deu aquele friozinho na barriga. Não, não vais mudar de idéia. Nem estás pensando nisto.

Ela se mexeu. Ele perguntou: Tá bom aqui?
Ela fez que sim com a cabeça enquanto esperava o moço simples colocar-lhe o avental. Passou outro segundo até que a cena do espelho lhe fez lembrar outra vez que (!)...
Não, já concordastes que não vais pensar outra vez nesta pessoa, que não vais permitir que mais um bobo acontecimento seja motivo de se desculpar em estares com a cabeça nestas lembranças. Já vais replicar: mas é que esse moço está com o perfume dele, mas é que da última vez que passei por aqui ele estava comigo, mas não é culpa minha, me ofereceram a revista para a qual ele escreve!

Ela resolveu colocar os fones no ouvido, talvez essa voz interna, masculina e repressora parasse. Nenhum playlist era neutro. Ou ele gostava ou ela gostava de ouvir com ele; ou ele havia lhe ensinado a apreciar ou ela havia copiado do CD original para ele também...

Quero outra trilha sonora. Agora, pensou.

Fones ao ar, o barulho que ficou foi o do ventilador e o da água que se derramava na cabeça dela. Ei, como vim parar aqui? Ai(!), por favor, pode trocar? Pode lavar meu cabelo com água fria mesmo.

A moçoila estranhou, mas seguiu o pedido.

De volta à cadeira.
Como vai ser o corte?

Que pergunta (suspiro fraco). Como vai ser a vida? Como vou acordar e continuar amanhã? Como vou jogar fora o que restou deste sentimento? O que vou fazer para tudo passar e passar sem fazer drama? E como vou juntar os pedaços? E o que é novamente, depois de mais madura, conviver com um coração em frangalhos?

Tantas outras perguntas mais importantes sem resposta que já guardava, que a moça não se perturbou em ficar com outra em branco: não sei o corte, disse. Quero uma novidade positiva, só isso, pensou.

Pode ser curto?
Pode mudar para valer?

Ela nem se alterou. Outra vez a eterna discussão. Ele sempre gostou do curto.
Você ia trocar a cor e não o tamanho. Vai parecer que fez para fazê-lo voltar. E você nunca gostou muito da idéia de cortar o cabelo tanto assim. Pode se arrepender duplamente.

Ela questionou a voz infame pela oitava vez no dia. Resolveu que venceria este duelo.

Vou cortar, disse ela.
Curto?

Aham.
Quer escolher o corte?

Faz o que quiser. Só não quero parecer Edward Mãos-de-Tesoura com essa minha cara branca e um cabelo sem jeito.
Ele riu.

Ela confiava no sujeito, fazia sete anos que deixava as madeixas naquele chão a cada trimestre. E ele conhecia bem a cliente: o que aconteceu com você, Vivian?

Na verdade, eu quero que aconteça algo, pensou.
E achou melhor ficar muda e esperar o visual aparecer.

Vinte e um minutos depois, ela pula da cadeira, voa para a porta discretamente.
A novidade não era agora o cabelo, ou a falta dele. Uma mensagem no celular mudava o foco da cena. Ela disfarça, olha o cabelo cuidadosamente no espelho.
Mas quer ver o lado de fora do salão. Será mesmo que me espera?

Ela paga correndo.

Sai e vê de longe as margaridas grandes nas mãos do rapaz, de costas, vestindo camiseta branca e jeans surrado.

Outro arrepio.
Não pode ser.

Você só poderia estar aqui.
Só não pensava que ia te encontrar ainda mais bonita.

Golpe baixo.
Baixíssimo.

Ela se vira para as margaridas.
Pensa no cabelo novo -- ele deve mesmo ter gostado -- e ao mesmo tempo onde está seu carro, quem falou para ele o endereço do salão, o número novo do celular dela, pensa que ele está mais magro, por onde ele andou nesses dois meses, como ele lembrou que ela adora margaridas, que a calça dele é aquela que ela deu de Natal no ano passado...
Pensa que não vai voltar assim fácil, que nem cortou o cabelo por causa dele, COMO vai disfarçar que o coração dela está batendo enlouquecidamente agora. Pensa no que vai falar, pensa se vai aceitar o buquê... pensa tudo ao mesmo tempo, em instantes de segundo e não fala nada, tonta em seus pensamentos.

Ele, calmo, ri do jeito dela, como costumava fazer, como quem já sabe o que passa na cabeça dela. E avisa:

Seu carro está do outro lado, Vivian.

Mas
Mas eu quero ficar aqui.

quarta-feira, novembro 8

Campos Semânticos Pessoais

Uma palavra diz e esconde.
Várias palavras sortidas também.

Já perceberam que a peculiaridade de cada pessoa também está nas palavras que ela usa com frequência para se expressar? Chamo de campo semântico pessoal, para quem gosta de siglas, CSP.

Vou enumerar alguns. Vamos ver se vocês reconhecessem os donos ;)
Ready?

  • gente, muito louco -- gela-- suquildo

  • combina-- bonitinha-- tá engraçadinha-- ratinhos-- classe três-- pelinha

  • frenético-- bolinhas-- frangalhos-- caracas-- speachless

  • super-- câmbio-- canela-- ficou legal-- marraio-- esperto do méier

  • confia-- chilling-- relaxa-- vacilo

  • espetacular-- demais-- dois palitos-- neguetes

...to be continued...

terça-feira, novembro 7

Três frases do dia

"Hoje, acho que o problema da rede não está mais
na invasão de privacidade e sim na evasão de privacidade."
(um comentário que rola no meio cibernético)

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“You can fool some of the people all of the time,
you can fool all of the people some of the time,
but you can't fool all of the people all of the time”.
(An old saying)

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"Una palabra no dice nada
y al mismo tiempo lo esconde todo."
(da canção de Carlos Varela)

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sábado, novembro 4

Paulinho, do trombone














Aos nove anos, perdeu a mãe. No mesmo ano, seu talento amanhecia. Aluno interno do Instituto Arruda Câmara, fazia parte da equipe de limpeza. Depois de varrer o pátio, corria para a sala de música e ouvia o ensaio da banda, atrás da porta, com a vassoura na mão. Um dia, foi descoberto. “O professor olhou para as minhas feições e me indicou para estudar trombone. Era exatamente o que eu queria tocar.”

Logo o talento tomou corpo, junto com o menino, que ficou adulto mais depressa depois de perder a avó na adolescência. E outra vez a música lhe tira da guarda da solidão: “Eu não tinha nada que me prendesse no Rio. Quando fui convidado para tocar na banda da Orquestra da PMDF, não hesitei, peguei o ônibus naquela semana. Cheguei aqui no dia 23 de dezembro de 1972. Vim sozinho, com coragem e com Deus me abençoando.” Depois, veio o convite para ser membro-fundador da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro (OSTNCS).

terça-feira, outubro 31

Ele me faz rir

Mas ele é horrível, o que você vê nele?, pergunta a amiga, incrédula.

Ele me faz rir. Eu fico olhando para ele e tenho só vontade de rir.

E elas falavam de um peixe, viu?

Veja o peixe telescópio aqui e o outro primo dele aqui

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Dados sobre eles:

Nome Científico: Carassius auratus
Reino: Animalia
Phylum: Chordata
Classe: Actinopterygii
Ordem: Cypriniformes
Família: Cyprinidae

Carassius auratus (Linnaeus, 1758) auratus.

Nome comum: peixinho-dourado

Descrição morfofisiológica:
O Carassius auratus é um peixe de água doce que tolera pH entre 6 e 8 e temperaturas entre 0 e 41° C. Sua coloração alaranjada é muito caracteristica. Chega a medir no máximo 59 cm de comprimento, podendo pesar no máximo de 3 kg. Sua cabeça é larga e triangular, e não apresenta escamas. O espaço entre os olhos é largo. Não apresenta barbilhos na mandíbula superior. Apresenta uma longa nadadeira dorsal com 15-21 raios, e uma espinha dura e serrilhada que tem origem nas nadadeiras dorsal e anal. A linha lateral é completa, apresentando entre 25 e 31 escamas em série lateral. Os machos são mais finos que as fêmeas. Sua população pode dobrar após 1,4 - 4,4 anos.


Reprodução:
Sexuada

Dieta:
Carnívoro (Uia!)
Detritívoro
Herbívoro

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Viram só, meu blog também é cultura :)

Peixiiinho...

Ela ganhou um peixinho novo.
Que alegria. Daqueles douradinhos.
Juntou com os outros amiguiulos aquáticos no aquário novo também.

Passou uma semana.
A água estava verde.
E a bela menina de cinco anos resolveu que tinha de limpar.

Apanhou o fofo (sabonete) e começou a esfregar com a esponja.
Limpou tudo direitinho, a água já estava bem melhor.
Voltou a ser translúcida.

Ela esqueceu de tirar os peixinhos de lá.

Os peixinhos nem curtiram o aquário limpo, só deu tempo de fazerem bolinhas de sabão.

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A mesma menina (ela não é a Fenícia) ganhou um pintinho.
Foi mostrar para a amiguinha:
Pegou-o com as duas mãos: olha como ele é fofinh--creck!
E o pintinho ganhou seu último abracinho.

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segunda-feira, outubro 30

Sonho de um filho

Eu, há uns anos, eu tive não uma vontade, mas uma idéia de um filho.

Eu me lembro que estava no Recife na praia de Boa Viagem. Acordei umas 11 horas com um tema de uma música na cabeça.

Fiquei ali no violão um tempo, daí desenvolvi o tema e fui procurar o Vinícius. A gente estava no mesmo hotel, fomos até lá para tocar num show.

Mostrei para ele: Vina escuta aqui um tema que eu estava pensando.
Quando ele ouviu, falou OBA! e me disse: vai para a praia, que quando você voltar talvez tenha uma idéia já pronta para te mostrar.

Aí eu fui, lá para umas quatro da tarde, voltei. Encontrei Vinícius em prantos, já com boa parte da letra pronta. E eu cantarolei assim, à primeira vista, e vi que da metade em diante ele tinha feito a música muito mais para ele...

[Quem contou essa foi Toquinho durante um show ao vivo no Rio -- no qual eu não estava na platéia porque tinha uns dois anos de idade]

Para quem não conhece a canção (linda na voz e violão dele), eis a letra:

É comum a gente sonhar, eu sei,
Quando vem o entardecer;
Pois, eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer.
Vejo um berço e nele eu me debruçar
com um pranto a mim correr
e assim chorando acalentar
o filho que eu quero ter.

Dorme, meu pequenininho
Dorme, que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem.

De repente eu o vejo se transformar
No menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim.
Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim.

Dorme, menino levado
Dorme, que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem.

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu,
[Sentir-lhe] a barba me roçar
No derradeiro beijo seu.
E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus,
[Ouvir-lhe] a voz a me embalar
Num acalanto de adeus.

Dorme, meu pai sem cuidado
Dorme, que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter.

sexta-feira, outubro 27

Vou de van - parte I

Não sei se há outra palavra que atraia historinhas como VAN em Bsb. Faça o teste entre seus colegas, conte algo com a palavra van e veja o resultado.
Cuidado, depois não me culpe:
Rende - no mínimo - meia hora de histórias tétricas e boas risadas...

Publico aqui uma coletânea, seja sobre a etiqueta ao andar de van, seja sobre episódios factuais, todas elas acontecem nesta cidade linda.
Se você tiver mais historinhas, é só acrescentar ;)
Entre e sente-se à vontade por aqui.

DÁ-TRÊ-SU até o final,
DÁ-TRÊ-SU até o final, DÁ-TRÊ-SU até o finaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaal
Depois de Rodoviária-PátioBrasil, é o grito mais comum pelos vanboys- como vou chamar aqui os cobradores/abridores de porta/ anunciadores do percurso/ vigias anti-policiais e co-pilotos das vans. Não sei porque sempre se fala mais de uma vez, e muitas vezes bem bem rapidinho. Se o vanboy estiver ainda com voz ou animado, ele completa com a outra frase consagrada: lugar para sentaaar!

Uma vez, um vanboy falou tão mal W3 Sul que um velhinho perguntou:
O senhor vai para o P Sul?
E eu respondi: Não, ele quis dizer dábliu-três-sul mesmo.

Outra vez, estava a van lotada (ok, isso não é novidade) e o vanboy foi chamar: Rodoviária-W3Sul. E se empolgou, completou, não sei se por costume ou se porque ele viu que um monte de gente estava para descer no próximo ponto: tá vazia!
Todo o pessoal que estava dentro da van "vazia" caiu na gargalhada.

ARROCHA!
Mais uma palavra exclusiva de comunicação entre motorista e vanboys.
Significa= pode correr como um louco pois o ônibus tá perto ou pode fazer essa ultrapassagem para sair do ponto ou seguuuura peão.
Tenho medo do arrocha (acho que seria uma boa comunidade no Orkut, será que já existe?). Toda vez que eu escuto arrocha! tenho um frio na barriga, uma vontade de pular a janela misturada com uma reprimida vontade de rir.

Próximadesce
Na falta de cordinha, vai o berro.
Se você quiser descer, grite próximadesce e pronto.
O vanboy vai repetir o seu grito imediatamente depois, só para garantir que o motorista ouviu.


Eu não consigo falar próximadesce. Sou burguesa fresca, falo: moço, vou descer na próxima, tá? E o vanboy faz que sim com a cabeça e repete próximadesce. E toda vez eu penso: que imbecil eu sou, não adianta nada tentar falar frases completas.

Madame vai na frente
Incrível, recentemente descobri que a prática também é universal.
A etiqueta das vans diz que se a mulher estiver com cara-de-madame-- ou seja, escovinha, saia, bolsa e um saltinho-- ela vai na frente.

Muitas vezes o próprio vanboy te convida no ponto: moça, vai na frente tem lugar. Eu não tenho dúvida: melhor que ir abarrotada nos bancos de trás.

Seguuura!
Outro vocábulo de comunicação entre vanboy e motorista.
É usado quando alguém vem lá de longe e faz um gesto que quer entrar.
Em geral, o seguura acontece porque a van está de partida da parada de ônibus.

Então, é sempre acompanhada daquela arrastada de porta e da ginástica antiinércia executada pelo vanboy, que enquanto grita seguuura, vai abrindo a porta e se segurando para não cair para fora da van por causa da freiada.

Dá medo, mas o arrocha! é bem pior.

(Ainda não acabou, depois eu conto mais... as piores estão por vir! )