terça-feira, agosto 9

Corpo, água, alma

Só sabia que precisava, de novo, voltar a fazer algum exercício.
Cansada de tantas horas de aula, livros e fórmulas, procurava algo que me aliviasse a rotina e, ao mesmo tempo, me voltasse a mexer os músculos.
E num dia que mal lembro, vi que meu cursinho havia fechado um convênio com uma empresa de natação, ali ao lado. Resolvido. Fui no dia seguinte ver como seria.
Um tempo depois já tinha óculos, maiô e matrícula. Na primeira aula, me descobri a única aluna do horário de meio-dia.
Para quem não sabia nadar, foi um privilégio. Meu professor, cujo nome era quase tubarão (charlton, que me lembrava shark), passou a nadar também, ao meu lado, com o fim de me ensinar a me mexer em ritmo menos acelerado, sem ansiedade de chegar à borda.
Aprendi que para nadar tem que haver uma entrega à água.
Não lembro por quanto tempo tive "aulas particulares", mas passaram uns meses e novos alunos chegaram. E nessa mesma medida de tempo, meu corpo foi respondendo aos gestos. Condicionava os movimentos e organizava seus músculos. Lembro o estado de espírito com que saía daquela piscina até hoje.
Em menos de um ano, nadava os quatro estilos e me preparava para competir. Não só emagreci, mas mudei por dentro. Como a piscina era aberta, ainda tive o privilégio de estar bronzeada em pleno inverno. Decidi cortar o cabelo, mudei a armação dos óculos. Vinha de dentro para fora e de fora para dentro a mudança. Ali, certamente, aos 18 anos, comecei a me sentir bem comigo mesma.
Me lembro de um professor do cursinho que se espantou ao me ver, depois de voltar de férias: ---E o que foi que aconteceu com você? Se apaixonou?
Talvez. Por mim, pensei. Antes tarde que nunca.

segunda-feira, agosto 1

Sofia e Beto

Todos os anos, a mesma espera. Sofia conhecia aquele cheiro. Chegara o tempo que mais lhe satisfazia no ano. Era o florescer dos hibiscos amarelos, que anunciava a primavera em seu trópico. Era o tempo de manhãs longas, tardes douradas e o vento de sudoeste, sua melhor desculpa para não pentear os cabelos.

Naquele ano, ela não sorria ao se deixar emaranhar. Não seria mais o tal vento da primavera a desculpa que ela contaria à mãe para sua preguiça em se pentear. Desta vez, o vento veio. Só que a mãe não estava mais lá.

Ao receber aquela primeira rajada, Sofia lembrou-se dela, daquelas broncas, e viu seu rosto banhar-se de repente, num ventinho. Estou besta, pensou. Nada. Depois da morte da mãe, a vida ficou séria para a menina de 12 anos. Fazia apenas 8 meses que a mãe sucumbira a uma virose. Era a primavera solitária da Sofia e ela ali descobriu que as cores precisavam sair também do armário.

Os hibiscos vieram, mas com pouca força. Parecia que não queriam invadir aquela dor com tanta maestria de cor. Mas, de verdade, veio Sofia a explicar: “Foram o incêndio e a seca que levaram tudo, até o dourado dos hibiscos.”

Passaram as semanas e Sofia continua a esperar aquela arrevoada que seguia o vento sudoeste. Eram os azulões, assim ela os chamava desde que aprendeu a falar. Eram os pássaros mais bonitos daquela mata. E naquela época, migravam ao norte. Sofia esperava atentamente, acordava a cada manhã mais cedo e olhava. Olhava. Ouvia. Nada. Demoravam. Será que viriam, depois da queimada? E não sabia se era mais triste não comentar dos hibiscos com a mãe ou não ouvir o canto mais suave da floresta de seus amigos de passagem.

Um dia, quando ela parou de olhar para o céu, acordou com aquelas notas tão familiares. Respondeu com o assovio, ouviu a resposta. Ficou alerta, pulou da cama e num forte puxão, abriu a janela e quase derrubou o amigo que cantava para ela.

Onde estão os outros?, ela lhe dizia, como se o pássaro azul pudesse responder. E ele voltava a cantar, da beirada da janela. Sofia sorriu. E quem não se alegra ao começar o dia com uma surpresa destas?

E foi assim que em cada manhã, seu despertador vinha pontualmente lhe acordar. Cantava a melodia preferida e chamava Sofia para reconhecer o outro dia que estava a brilhar. Ela sorria de volta e esperava o resto do grupo aparecer.

Seu amigo passou a andar em seu ombro, cantar com ela a tarde emoldurada e lhe acompanhar nos passeios pelo bosque. A via plantar e colher. Caminhar e comer. Mas Sofia, em sua dor, não reparava que ao seu amigo cantava, mas não voava. E acho que passaram semanas até que a prima dela lhe perguntasse: mas e o Beto, não voa? Você não teme que ele vá embora?

Foi como se chovesse num dia de sol. Ou como se fizesse sol no meio de uma tempestade. Sofia ficou triste. E as escamas caíram de seus olhos egoístas. Ela nunca tinha reparado nisto. Um pássaro voa. Um azulão, mais ainda. Mas ela só queria a companhia dele e não percebia a tristeza do amigo. Depois daquela pergunta, o canto do Beto pareceu ainda mais apertado, daqueles que fazem força para sair do peito bonito. Mas ela não descobriu o problema. Só sentiu que suas asas não paravam bem no corpo, como se tivessem encurtado.

Sofia não desistiu. Consultou amigos na floresta, procurou outros pássaros, mandou recado por sua coruja, passeou em busca de plantas e ervas que lhe ajudassem. Beto não queria nenhuma. Não respondia a nada. Não acreditava que suas asas o levariam de volta ao céu.

Uma tarde, Sofia e Beto estavam em seu piquenique habitual. Ela levara mel, tangerina, banana e balas de coco. Beto cantarolava em seu ombro, ela contava fábulas que aprendera com sua mãe. Quando, sorrateiramente, Beto caiu de seu ombro, trepicou num semi-planar e prendeu em seu bico, no ar, a vespa que morderia a mão esquerda dela. Sofia se estremeceu. Ficou pálida. Não sabia se era pelo quase voo do Beto ou pelo susto da vespa. Ela sabia que era alérgica. Uma picada virava febre depois, no mínimo. Mas e o Beto sabia? Intuia? Como... ?

Quem não se aguentava era o Beto. Depois de meses sem esticar aquelas penas, ele fez aquilo. Cantava como se fosse espantar outro macho. Sua voz era nítida, forte, alta que outros passarinhos por perto, começaram a lhe responder. Sofia teve os olhos cheios de água. E, depois daquele dia, passou a caminhar com o Beto por lugares mais difíceis, onde ele poderia se jogar e se sustentar. Ela estaria sempre lá, no pé da árvore, para lhe escorar. Beto teve mais coragem, resolveu tentar.

A primavera corria com suas surpresas. E depois da queimada, ia recuperando a mata aos poucos. Outras cores de hibiscos floresceram. E também as sibipirunas, os guapuruvus, os baixos arbustos e algumas orquídeas. As onze-horas, animadinhas, se abriam às dez. E as tardes terminavam mais douradas que no começo.

Os dias passaram até que Sofia ouviu a arrevoada. Saiu de casa e o Beto já louco, pulava da janela aos galhos. Voava em pequenos planos, mas tentava sair dali. Ela sentiu que o vento soprava, agora, era sul-sudeste. E um arrepio lhe subiu o corpo. Sofia sabia que a hora chegara, Beto partiria.

Num impulso, levou a velha gaiola para fora da casa, pendurou os poleiros no pé da árvore. Deixou as tangerinas por perto e zapt! capturou seu amigo. Beto calou-se. E, mais tarde, passou a voar sozinho e bater nas grades.

Sofia viu a cena e não acreditava. Sim, ele voava, não se apoiava mais nos poleiros, não ficava no chão, voava tanto que se machucava. Os azulões começaram com o famoso sobrevoo da primavera. Voavam juntos, separados, escolhiam árvores, brincavam de se esconder. Cantaralovam e depois levantavam voo todos juntos. Uma coreografia tantas vezes admirada por Sofia e sua mãe. Mas naquele dia, ela só tinha olhos para aquelas grades. E perdeu o seu espetáculo preferido de primavera.

Beto cansou e ficou mudo. Sofia só chorava, não queria abrir mão da companhia dele. Não poderia passar mais suas tardes sem aquele canto. E mesmo com o pássaro ali, perto, em seu lado, perdeu a melodia. E ela que o ajudou a voltar a voar agora o deixara ali guardado.

Sofreu uma noite em claro.

No dia seguinte, eles voltaram. Com mais luz, mais vento e melhor canto. Ela sabia. Beto tinha de ir. Abriu sua janela e todas as portas da casa. Colocou seu vestido preferido, descascou a última tangerina da estação e com a fruta numa das mãos, abriu a gaiola para o Beto.

Tímido, cansado, ofendido, ele saiu. Comeu em suas mãos sem fazer qualquer movimento de decolagem. Ela sorriu enquanto fingia não chorar. Olhou o amigo, em suas mãos, e o empurrou do mesmo jeito que sempre fazia, nos treinos. Ele não soltou dos seus dedos. E ela o jogou novamente. Vai!

E ele já não teve mais dúvidas. Subiu sem restrições.

Sofia chorava. Foi-se embora sua companhia.

E sua dor era tanta que naquele dia não foi ver o por-do-sol. Ela queria acreditar que talvez tivesse sido um sonho e não um dia de verdade. E que seu amigo, entregue, talvez voltasse.

Mas ele nunca voltou.

Em Sofia ficou a saudade que lhe fazia chorar cada vez que o primeiro hibisco abria e o vento mudava. Foram três primaveras até que ela entendesse.

Ela não perdeu um pássaro. Ela ganhou a todos.

Por que a cada vez que via um azulão voando, solto e livre, relembrava com carinho do seu Beto. O passarinho que voltou a voar por suas mãos.

E o pássaro que ensinou Sofia a voar... nas asas da liberdade do seu amor.


terça-feira, julho 5

Waiter

My dearest,

I told you over the phone that I would write when I had the time. Better, when I had THAT quality time in which you feel extremely good on spending it without that rush. It comes to a sentence told me by Marcelo, which I kept in heart: it is good to do things with time. He said it trying to argue that his 45min bath was not long. But I understood it bigger: it is good to do anything with time. Meaning, I am here just thinking about this and nothing, that I reckon, will interfere me on stopping it. I want to do it now, my amount of time seems more than enough and it feels just great to use it this way.

After all this useless commencement speech (sorry dear reader), I will start, definitely writing what I had in mind when I opened my mac book.
I decided that I will wait. I'm tired of searching, looking for, conquering, being anxious, having ideas and being proactive. Now, I am a waiter. Time will serve me, not the opposite. I will wait things to happen, event if there is nothing more to happen than my shower not being able to heat the water well enough.

One may say, oh, please, Fernanda, don't be so negative or pessimist. Indeed, it is quite the opposite. By waiting, I'm forcing myself to be optimistic. Would anyone wait for an earthquake? I would run away, knowing it was coming.

This extremely difficult task that I am setting myself is not a naïve or lazy one. To know me and realize how difficult this would be to myself would only take the reader a single line on a dialog. I'm anxious. I'm a doer. I hate to sit in front of my computer for nine hours a day. I am the one telling colleagues to do more that we have done last year, meaning more work, more dull things to organize. You know, I rock.

But here I am. Tired of expecting all crazy things about life. A huge-duper-mega-blaster sunset, an incredible song to play, a masterpiece movie to watch, a smart man to talk to (this, I guess, the hardest one to find --- oops, just kidding, it is to make readers laugh).

"God does not need our help". I've heard this from a friend, a line that made me go deeper and deeper each time it came in to my thoughts. But I keep trying to help him. I will call that guy, I will write another one, I will buy a glass of wine. Expecting this or that to happen. Waiting for that kind of attitude. Planing that perfect weekend. And things fail, here and there. Sometimes, it really occurs as we wanted, sometimes it does not. And the difference between the two of them? Comparing what I deposited on each situation, no difference at all. Conclusion is He does not need me. It happens when it is proper. Period. I can antecipate, prepare, expect and bingo! And do the same thing and bullshit!

The truth on that sentence relies on faith: I waiting on God but I not lying on my couch. I will keep everything running, just by doing that to wait more on Him.

Let Him bring me what I need.

Everytime I did it, He surprised me. To show me that His love was greater than my lack of faith (because on those occasions I did wait with no hope and by tiredness).

Now, I will allow myself to get inside His wishes and dispositions.
Meanwhile, I will buy a new shower, of course.

terça-feira, fevereiro 8

Em Congonhas, numa sexta, ao meio-dia

Bom dia, São Paulo.

Hoje amanheço entre suas pixações e seus cimentos. Caminho por suas ruas, esquinas conhecidas, cheias de lembranças. Vejo suas calçadas quadriculadas e sinto o frio tão comum dos seus dias cinzas. Mas é novembro.

E, neste mês, sem impor-me prazos, te aviso, o meu, com aquele teu filho, venceu. Escuto você, São Paulo, a me sussurrar na memória dias alegres e por aqui, outras horas de angústia e espera. Me parece tão próxima e distante. De novo, vamos fazendo as pazes e vem você, cidade, a querer me cicatrizar de suas próprias marcas.

Parto sem companhia. E em ti não ganhei nem um beijo. Mas não volto para casa com dúvidas ou certezas sem futuros. Há isso?

Você me sorri, me lembra que foi testemunha desse amor, que passeou comigo de volta à vida, que me proporcionou prazeres e descanso. Eu não sorrio. Concordo. E te digo, ah, São Paulo, mas você é tão fria. Me envolve, mas nunca acalenta; me amadurece, mas não me acompanha. E, principalmente me suga ao fazer promessas vazias.

Ao contrário, te surpreendo pois ando por aqui agradecida. Pisei em ti e não ouvi a voz do seu filho que partiu. Não pude e não quis. Naquele bairro não entrei. Te conto isso não cheia de orgulho, mas suave de não ter mais essa angústia.

Te conto, São Paulo, que aqui não está mais a fonte da minha alegria ou também de uma ilusão. Você me acena e concorda. Faz tempo que acabou e agora sabe, fui eu mesma quem acordou.

Volto para casa sem lembranças tuas. E quero, por lá, descobrir-me mais distante de você. Sem deixar por aqui o coração partido. E quanto alívio ao ir-me embora sem querer ficar!

Não vive mais você, São Paulo, comigo num sonho. Vive só, em seu canto na minha memória. Te vejo me olhar com saudade e carinho, mas sem reação. Se volto, se te procuro, não sabes mais. A novidade é que eu agora descobri: você não me espera. Nem eu.

Te estimo, São Paulo, mas não te desejo mais.

Adiós.

segunda-feira, fevereiro 7

Vá, eu quero ficar

Ouço sua voz que me parece descanso, mas ela me traz o passado. Ela me promete nada, apenas o instantâneo. E isto não é o suficiente mais. Ela antecipa e prepara o encontro com doses homeopáticas de carinho. Ralo, ainda que você o veja real.

Meu coração, que decidiu, por um tempo indeterminado, tirar greve de todo o resto do ser, é o único, em mim, que insiste em ver alguma veracidade em sua voz. Ela fala, apenas. E pouco. Mas é impalpável e distante.

Então, o tonto coração se prepara todo e arruma o resto do corpo a te receber. A voz traz o atraente abraço, o quente sorriso, a companhia confortável. E se alguma vez houve meio termo nisto, lhe traz de volta. Não é mentira. Nem verdade. E o prazer do encontro é cortado pela noção do efêmero. Minha razão e todo o consentimento me dizem simplesmente que estou sendo sugada.

Sabe quando você abastece? Você sai cheio, e eu fico vazia. O processo é simples assim. Nem você, conscientemente, me quer fazer este dano, mas nem eu quero me deixar inteira. Por que o estúpido coração resolveu se deslocar do sistema. E você aparece com o que tem e me carrega com o que trouxe: doença, consultas, provas, medos. Não me pergunta sobre os meus dilemas, segue em frente, descarrega e o meu coração se farta em acomodar tudo teu, lá dentro.

Mas eu volto. Não consigo depois andar de tão pesada. Me esforço, vem não a raiva, mas a tristeza. E eu que me meti nessa, agora vou tirar.

Nem me venha, como um vampiro, me sugar as energias, me pedir atenção, me querer perto como um amparo, descanso, companhia para depois nem me ver ao dar bom dia.

Não
quero algo etéreo, esfumaçado, sem nome ou com poucas palavras.
Não quero uma voz que não tem firmeza para a verdade.
Nem me venha me colocar no seu jogo, na sua viagem.
Enquanto você voa, eu vou ficar com os pés no chão.

quinta-feira, fevereiro 3

maquiagem e causalidade

Depois daquela faxina para deixar o armário habitável, onde forão descobertos perfumes não usados e guardados; esmaltes; estojos de sombras esquecidos; óculos de natação que tinha dado por perdido, a conclusão foi inevitável: por que deixei de sair de casa maquiada?

Adepta ao estilo "é bom estar sempre bem", sair com máscara nos olhos e batom nos lábios era, no mínimo, a sensação: pode vir, estou preparada. Ou quase (rs). Com a maquiagem esquecida ou guardada, veio a evidência do descaso.

Tudo isso para dizer que vale a pena.

Resolveu que acordaria com mais tempo de antecedência do horário habitual, para ter tempo para si. E acordar. E tomar um bom café, com direito a ler, quem sabe, uma ou duas páginas da Bíblia antes de sair de casa. E o fez. Na segunda-feira. Escolhe o vestido e sai, desta vez, depois de meses, preparada. Chega ao trabalho pontualmente, coisa rara. E ri para si mesma da liberdade que sentiu ao se arrumar só para se sentir melhor. Sem precisar de nada nem ninguém a mais como estímulo ao batom.

Chega a hora do almoço, encara o calor de 30 graus na cidade seca para encontrar a amiga. Depois de comprar a redinha para o cabelo (ela voltara ao ballet), vai tirar o carro da vaga. E espera o carro vermelho passar. Espera! Ei, espera! E não é o Márcio dirigindo????

Ui.
Ela nem se abala. (Ou quase). Olha diretamente para ele como quem quisesse dizer o de dentro. Sorri de lado e espera que ele a veja. O carro passa rápido, mas aquele olhar, ela sabe, não passa desapercebido. E... ele tira a mão do lado de fora do carro! Sem querer, mas querendo, sai moça da vaga, decide alterar o percurso, e pára, no sinal, bem ao lado do carro dele.

Espera. O sinal fecha. Ele abre a janela da direita.
Ela se vira, põe a mão na janela, encosta a cabeça, e escuta "como vai, moça bonita?"
Ela ri e pensa, tira a mão do cabelo, tira a mão do cabelo!, não precisa dar na cara. Responde e a conversa flui. E ele naquele carro vermelho. Não precisa sentar lá dentro para sentir o cheiro. Do outro lado, o rapaz se deleita. Tenta disfarçar, mas não cola.

Logo, a luz verde indica o fim do encontro improvável e inesperado.
Ele se despede, um beijo. E ela, louca, responde, vários, antes de engatar a primeira.

Viu só como o lápis, rímel e batom valem a pena?, ela ri e pensa, nem reclamarei na hora de tirar, de noite. A maquiagem. E algo mais.

terça-feira, agosto 24

totalmente sem noção

Foram mais de dois anos em distância. Sem novidades. Ou telefonemas, sms, esquece.
E a vida, num dia de sol sorrindo, lhe traz a surpresa.
Chega em casa com o buquê de flores, nas mãos do ex-namorado.

Depois do silêncio, vem outra tentativa.
Ela nem pensa. Senta e diz, o que?

Depois de meia hora sem convencer, ele lança o melhor argumento:

-- É que você não entende. Você é feia, mas eu gosto de você mesmo assim.

sábado, junho 19

3 filmes e a desculpa, por favor

Ela estacionou longe o carro. Andou devagar. Era um passo de consolo e de força. De quem quer dar tempo ao pensamento, ainda que o tema não tenha variado ultimamente como ela queria. Chegou na locadora para preencher a sexta-feira. Quem sabe, talvez também, o sábado.

E com o olhar pesado, voltou-se para as prateleiras. Só que antes o olhar lhe furtou uma imagem atraente. Passeou pelo corte da calça, cor da camisa, punhos dobrados, mãos expressivas e chegou no olhar, esse o ganhador do atraente adjetivo. Bem aqui na minha locadora?

Rápido, disfarça, se concentra nos filmes e diretores. Sempre me esqueço qual quero ver, e a lista fica em casa. Pensa alto. O rapaz, claro, em pé, ao lado dela, que também usa a dúvida para despistar, responde e não é sempre assim?

E ninguém reclamou quando a atendente avisa que ao alugar 3 filmes, você pode levar mais um, de graça. Mais tempo, mais ensaio, outro papo.

Ela sai de lá sem número, só com o nome na cabeça. Se despede, e usa a recente informação roubada. O rapaz, pressentindo, assume o sorriso sem culpa e acena.

Ela sorri e pensa, não tenho mesmo jeito para discrição.

Dois dias depois, o bilhete. Bilhete? E se usa isso? Ainda bem que tem gente mais desencanada no mundo, pensa ela. E volta para o carro, com a deliciosa pergunta na segunda-feira: ligo hoje ou amanhã?

sexta-feira, junho 4

Sobre lentilhas, abóboras e amigas

Primeira vez na casa dela. Uma amiga em comum a colocou ao lado da vizinha de quadra. Ali estava, depois de um domingo de angústia. Na entrada, vê livros em comum na estante. Depois, chás da marca preferida. E na parede, fotos da época em que a desconhecida dançava ballet.

Em menos de 30 segundos, vários campos em comum. Sem falar na mesma profissão. Sorriu de canto. Se tem uma coisa que ela aprendeu era bater e ver uma boa amizade a se formar.

A nova amiga estava na cozinha. Cortava uma abóbora japonesa com esforço. E o vinho, em cima da mesa, estava aberto e pronto a ser servido. Ia ser uma conversa interessante.

[E o foi. O papo, queridos 8 leitores, vai ficar em off, desta vez. Quero hoje contar da abóbora.]

Depois de cortar, levou ao fogo, avisando às visitantes: vou fazer uma sopa de abóbora com lentilhas. Topam?

Chegou, depois de um tempo, a hora de experimentar. Após os pratos esvaziarem, a surpresa para a mestre-cuca veio.

Uma comenta: eu não gosto de abóbora.

E ela: sempre deixo lentilha de lado.

Mas, naquela noite, depois da carinhosa recepção, não tinha nem porque não tentar. E sorriram todas com a descoberta. Amizade não tem receita.

quarta-feira, junho 2

De volta

Faz tempo que minha palavra se enfeitiçou
Saía bonita só para visitar-te
Sentia-se fina para alegrar-te
Aparecia repentina exclusivamente para cortejar-te

Mas minha palavra, sábia
Percebeu, antes do coração, que precisava universalizar-se
Cansou da covardia de não se libertar

Minha palavra lhe deixou
Bem depois do seu adeus.

Meu coração insistiu, brigou, e a fez voltar
E ela, metida, até apareceu, querendo brilhar.

Mas, tão sabida, de louca se fez
No papel deixou o coração
se despedaçar
Na trapaça dela, veio a redenção dele
E não mais a obrigou a dançar
Logo, a palavra, minha, cansada, deixou o tempo revirar

Volta hoje, frondosa
Disposta a não ter o par.
E quem precisa de um único destinatário
para outra vez se publicar?

Minha palavra volta ao seu lar.

terça-feira, janeiro 12

Diários Antárticos - parte II

Voltamos ao nossos diários.

Queria contar, antes do gelo, um pouco daqui de Punta Arenas. Mas duvido que esses parágrafos logo lhes interessem.

Então, vou direto ao lead: passei ontem 2h40 em solo antártico. Pensei o que talvez alguns pensaram agora -- praticamente 5 dias fora, horas e horas de C-130 para ficar 2h40 ali? Foi exatamente assim. Vale a pena? Claro. Mas fica o quero-mais!!

Acordamos às 4h da manhã. O voo estava previsto para as 6h. Não saímos. Foi atrasado. Esperamos até às 7h para ir ao aeroporto. Decolamos depois das 8h30.
Metida que sou, fui para onde acho que pertenço, para a cabine. Explico rapidamente: a missão é de responsabilidade da Marinha. A FAB dá apenas o 'suporte' pequeno de levar essa galera toda. O resto quem ve é a Marinha... Então, convidados, pesquisadores, jornalistas, etc, são todos escolhidos, relacionados com a Marinha. Os militares a bordo, em maioria, da Marinha. Nada contra. Mas os meus são os que voam :) Daí, lá fui eu no meio do pessoal... Vi a decolagem de Punta Arenas (liinda, na beira no mar que faz a curva).

Fiquei ali nas outras horas seguintes, de olho nas janelinhas (vejam depois as fotos no flickr).

A hora mais emocionante da viagem foi mesmo o pouso.
Estava na cabine, em pé, atrás dos dois pilotos. (Fiz um videozinho, mas ficou pesado, não consigo enviar por email. Vou dar um jeito e mando depois o link)
De longe, a ilha XX cheia de neve, ao lado, no mar, blocos de gelo, alguns icebergs (eles são azuis!)... Tudo ali na frente e eu ainda sem acreditar. Um silêncio a bordo. 4mil, 3.5 mil, 2 mil pés... E a pista, que parecia um rabisco na neve, fica mais gorda e nítida. Mesmo assim, curta. Ao redor, só gelo, neve. Risco.

O piloto, experiente, faz sua aproximação. Eu tento segurar minha câmera sem tremer, difícil. Não só pela aeronave...

E rapidamente, menos de dois minutos, estamos no chão. Tia Alice, lá embaixo, aplaude o pouso. Merecido. A tripulação, na cabine, troca apertos de mãos. Daí sim percebo que o lance era mesmo desafiador.

Logo estamos pisando na neve. Frio de 1*C, com sensação térmica de -9*C. Isso é verão!! Saímos com um vento de quase 30 nós... E estávamos na Base Chilena Eduardo Frei (a brasileira não tem pista de pouso, pela localização) Alguns mais sortudos, autoridades civis e militares, foram até a brasileira depois, de helicóptero. Muito muito legal ver helicópteros voando por ali.

Dali, fomos para um dos conteiners... para esperar uma "condução" que nos levaria até a "praia". Penso logo: temos só duas horas aqui e eu vou ficar esperando? Depois de ir ao banheiro (normal, sem ser tosco, limpo e com tudo encanado... melhor que muitos de posto de gasolina), resolvi me juntar a outros 2 caras e sair na neve, deixa a condução para os menos Chuck-Norris hehehe

Foram memoráveis 23 minutos de caminhada. A neve derretia, o pé afunda, mas estávamos numa "rua", por ali passavam os "carros", picapes, e aqueles tratorezinhos de neve (perdão não sei como chamam isso)..

Fomos até lá parando a cada espaço interessante para tirar fotos. E eu querendo andar, ai ai ... Mas enfim, quando me dei conta, parei de reclamar e olhar menos para o chão. E sim ao redor. Nada de bichos ou aves. Nada. Nenhuma voz ou barulho, só o vento. Quem já viu nevar sabe: é silencioso. Mágico. Era isso que eu sentia. E frio também. Misturado com calor, pq debaixo de tanta roupa e com uma bota superultramega impermeável, eu suava da caminhada esforçada... (e ainda não havíamos almoçado, só um lanche depois do café das 5h da matina)

Para não dizer que não vimos pinguins: aqui vai a foto do único que deu o ar da graça (vai em anexo). E eu com as duas máquinas, ia alternando: em filme, o que era PB, em digital, o colorido.

Chegamos mais perto do cais e por ali a Base Chilena toda. Fomos à lojinha de souvenirs (meu Deus até aqui canecas, chaveirinhos, broches, imãs de geladeira e cacarecos caro inúteis porém quase irrestíveis) que funciona dentro de um conteiner.

Dali, andamos mais um pouco na neve e já era hora de partir.

Rápido assim.

Voltamos para a concentração, para o corpo voltar a sentir menos frio, tomei água! água! Fora da geladeira e gelada, claro!!!

Depois, voltamos e eu na decolagem, de novo, na cabine :)
Dormi ali, numa maca suspensa, o melhor sono dos ultimos tempos.


FOI MESMO SENSACIONAL :D

Saudades de todos, tenho que ir agora...

bjs

Fe

sexta-feira, dezembro 25

Diários Antárticos - parte I

Queridos amigos,

O dia começou às 5h e a decolagem só foi acontecer exatas cinco horas depois.
Chegamos no aeroporto do Galeão (o militar) com aquela movimentação clássica de segunda-feira. Três aeronaves na pista, gente esperando para ver se dá sorte (e embarca numa vaga sobressalente). Os destinos: Brasília, Recife e Pelotas.

Eu estava na tripulação da terceira, como vocês sabem.
Depois de ver a decolagem dos outros dois C-99 ou EMB-145 como aprendi que a aviação civil costuma chamar, fui esperar a minha vez.

Não demorou muito e apareceu tia Alice. Vocês ou já me ouviram falar dela ou vão ouvir falar muito. Figura lendária. Na primeira foto em anexo (tá vendo Tourinho, no fundo é tudo falsa modéstia quero mesmo te superar hehehe) aparece ela ao lado dos pilotos no momento do briefing da viagem.

Tia Alice foi a primeira comissária da Varig. Exatamente. Tem 57 anos de aviação. E exatos 20 anos de Antártica. Hoje perguntei quando ela foi pela primeira vez, já esta era a minha. Ela me responde no ato: Dia 17 de outubro de 1989. É isso aí, quando as coisas marcam a gente, lembramos do dia, da hora, e outros detalhes mais...

Ela foi uma vez, deu ordem na comissaria e desde então nunca mais deixaram de chamá-la. Também, pudera, a mulher é um primor. Super educada, suave, gentil, daquelas velhinhas magrinhas, cheias de energia...

Alguns já sabem da minha idéia, prefiro morrer cedo que ficar capengando aos 80. Mas se for para chegar como a Tia Alice, ah, Senhor, me deixe por aqui. Imagine você aos 60 anos descobrindo a Antártica???

Para quem sempre vou de FAB, ter comida a bordo e servida é luxo, é boirgois (Lais, socorra meu parco francês). Quente, então? E não é que essa senhora consegue, dentro de um avião ENORME, barulhento, cheio de carga, com pessoas sentadas em bancos laterais fazer um serviço decente? Mais que decente, carinhoso?

Hoje comemos um sanduíche quente com pão fofinho, recheado de presunto e queijo. Acompanhou: suco de laranja com gelo, café com leite (quente que tinha de soprar), frutas picadas (abacaxi e mamão!) e ainda um lancy!!! NUNCA antes na minha vida comi tão bem na FAB. Luxo. Lindo. E tudo na bandejinha. (viu só como eu sei falar algo além de sensacional e fantástico?)

Ela, muito querida, claro, me colocou ao lado dela e nesse dia, virei comissária. Até que é interessante...

Outra adaptação genial de tia Alice é o megafone, a segunda foto do anexo.
Ela faz aquela rotina de avisos por meio dele. Parece sem sentido, mas é que vocês não tem idéia do barulho que 4 motores a hélice provocam dentro do tubo do avião. SOCORRO. C-130 tem dessas aventuras. Então, ela recebe cada passageiro, ao entrar a bordo, com um sorriso e um tapa-ouvidos em mãos. Daí lá pelas tantas ela grita: atenção passageiros falta meia hora para o pouso, por favor coloquem suas poltronas em posição vertical. Metade da galera, os novatos, riem dela.

E o GELO?? Gente, gelo não vi nada, ainda. E nem amanhã verei, viu?
Só faremos a travessia (mesmo de avião eles chamam assim a ida ao continente antártico ou seria antártido) na QUARTA-feira.

Parece demorado, ne? Bom, mas vai de navio para ver como demora... E ainda: de Pelotas para Punta Arenas, no Chile, viagem que faremos amanhã, são SEIS horas de voo. Seis horas de barulhooo. Valei-me minhas clarices, meus amyr klinks e minha biblia, companheiros de viagem.

Acho que já deu, não? Vou começar a me preparar para dormir, amanhã a alvorada (toque de corneta, na academia) é às 5h. E ainda tenho de fazer um trabalhildo antes de sair. Mas não reclamo. Cada vez o sonho fica mais real.

Bom mesmo, de verdade, é dividir isso com vocês.


Beijos,

segunda-feira, dezembro 14

Antártica ou Antártida?



Tudo começou com ele. Não só a minha vida (para não ser piegas demais), mas também a vontade de voar e, lógico, de visitar esse continente instigante. (não vou dizer gelado, tá óbvio demais, estou de bronca hoje).

E por agora, quando todos ainda me questionam e me respondem, fica o embate no diálogo:

Ei você vai para a Antártida?
E eu, sim, estou embarcando para a Antártica amanhã.

Para mim, filha de piloto antártico, que convive desde 92 com uma casa cheia de pinguins (de pelúcia, de imãs de geladeira, em estampas de pijamas, mantas, etc), isso parece meio banal. Mas, lógico, não é.

Agora que refaço a rota sempre feita pelo meu pai, nos meus anos de começo de adolescência, relembro os dias em que escuta Big Mix, andava de bicicleta, jogava queimada e inventava caça-tesouros enquanto meus amigos incrédulos me perguntavam outra vez:

-É verdade que seu pai vai para a Antártida?
E, eu, sempre insolente, respondia:
- Já é a 10a vez que ele vai para a AntártiCA...

E a discussão pelo DE ou pelo CE rendia.

Hoje volto a essa rota (Pelotas-Punta Arenas-Base Eduardo Frei-Base Comandante Ferraz) e volto à mesma pergunta.

Para não enrolar e responder: TANTO FAZ. Não sei porque, mas detesto essa resposta. Se tanto faz, para que duas opções??!

Continuo preferindo a prosódia da cerveja. Logicamente por que cresci ouvindo essa versão. É a usada pelos milicos em todos os lugares. Vejam, o Programa da Marinha é PROANTAR, sigla para Programa AntártiCO Brasileiro.

Em português lusitano, o termo é Antárticda e sinceramente não sei se a essa altura do campeonato, com o acordo ortográfico isso influi em algo. Em espanhol, fica Antártida e em inglês fica Antarctica.

Achei outra boa explicação que reforça o termo escolhido como padrão pelos milicos:
O nome Antártica surgiu da versão 'romanizada' do grego Antarktiki, que quer dizer 'oposto ao norte'. Ou seja anti-ártico, antártiCO.

E ainda melhor explicada para quem tem mais paciência e curiosidade de ler:
Antártica é uma palavra de origem grega que reúne os termos anti (oposto) e arktos (urso), sendo que este último termo refere-se à estrela polar da constelação de Ursa Menor ou Little Bear. Esta origem etimológica sugere que, com base na teoria de simetrias e opostos, os gregos supunham a existência de uma terra desconhecida em uma região oposta à deles.

E vocês, que forma preferem?

domingo, setembro 27

planta teimosa

tenho em meu coração sentimentos
de uma planta
que nasceu
está a florescer

mas agora não se pode
podar
nem hidratar

a planta enlourece do sol
encurva-se com a dor

mas se recusa a morrer
no meu interior

Acordar com os pássaros depois de um pesadelo

Encantar-se com o uivo, sem medo, do vendaval

Esquecer do dia da semana ao ouvir uma sinfonia

Dar a vez na fila do banco

Fazer a mala quando se tem medo de voar

Falar de amor

Tocar uma música ao surdo

Mostrar as cores a um cego

Escrever poemas a um engenheiro

Cozinhar com três ingredientes e sem fome

Comprar pão com as notícias do domingo

Passar por uma cirurgia

Abrir a boca para o dentista

Fazer um elogio sincero

Escolher o presente querendo agradar

Preencher a ficha de inscrição de um concurso

Enviar uma carta pelos Correios

Visitar um desconhecido, doente

Caminhar pela praia, sem relógio, sem porquê

Soltar o cachorro da coleira

Levar o papagaio para a rua

Esperar a nota vermelha

Deixar-se as unhas por fazer

Vestir-se de branco para o altar

Despir-se inteira para se desenhar

Rir do prato que quebrou

Jogar o sobrinho no ar

Deixar a pipa alçar voo

Empinar a bicicleta sem as mãos

Levar a calça para fazer bainha

Buscar um filme na locadora

Fazer transferência bancária pela internet

Pintar os cabelos de furta cor

Deixar o bigode crescer

Comer mangaba sem sofrer

Tirar os pêlos do lugar

Animar os jovens a votar

Voltar para casa da farra sem vomitar

Pular o muro para cair na praia

Esquecer a chave de casa

Mudar de país sem falar outra língua

Esperar os gêmeos para o parto normal

Ler uma historinha no final do dia

Comer pastel na rua

Deixar o celular desligado

Deitar no colo e esquecer-se do lugar

Ler um novo romance sem olhar a última página

Apostar no bolão do trabalho para não ficar de fora

Passar o rímel num dia triste

Cantar no banheiro sem perder o tom

Deixar o despertador tocar só uma vez

Deixar o despertador sem tocar

Dirigir sem saber o lugar

Pegar um ônibus pela primeira vez

Levar a vida como seu único freguês.

segunda-feira, julho 20

não se demore

quero ainda conversar com você
quero me deitar
e te cantar versos bonitos
te dizer outras coisas

ouvir sua voz
para descansar e acreditar que a vida vale a pena
que o amor sempre vence
que acordar amanhã vai ser
estar mais perto de te ver
que meu colo vai precisar do seu cansaço

que teu abraço vai diminuir a minha exaustão
ah, vai, não me deixa a te compor
esses versos meio tolos
com palavras instantaneas
que depois te enchem de calor

fico aqui, a te esperar
e que outra graça tem de aqui estar?
vem, meu amor, não se demore
ainda tenho a noite inteira para te amar

quinta-feira, julho 16

efeito

Sabe quando você quer dizer algo
Quer ter algo novo
Criativo
Gostoso para escrever

E não tem?

Mas mesmo assim insiste
Espreme
Aperta

E escreve?

Sabe quando você quer por no papel
o que sente
nem sabendo para quê
e sabendo que não vai conseguir?

Mas você tenta
Insiste
Espreme
Aperta

E escreve?

Sabe quando tua veia artística
anda tão à flor da pele
que um espirro
é uma desculpa

um suspiro
é um vocativo

uma risada
vira uma vírgula

e tudo se encaixa
na poesia

(e muito além dela)?



Digo a quem por ventura perguntar
que é seu efeito em mim

:)

quarta-feira, julho 8

eu vou

pego gripe, quase me perco no meio da mata atlântica
fico cansada de me descansar, fico doente de me resistir e te esperar

mas vou até o fim do mundo
a te procurar

a querer ouvir tua voz
a esperar o teu oi
a olhar tuas mensagens
a curtir alguma resposta

me viro
dou um jeito
e sem tempo
sem meios
encontro um momento
um alvo e uma forma
de te escrever, ligar, mandar um pedaço do meu amor.

e sabe o que eu descobri?

que o amor é uma arte de se multiplicar-se
e de inventar-se

pq não é mesmo suficiente dizer apenas uma vez eu amo você
não é tolo repetir outra vez
nem parece sem sentido que cada vez
soe como a primeira
ou seja bom ouvir como se não se soubesse

não se sabe do amor
nada sabemos
o experimentamos
o vivemos
e o construímos

com os gestos, sentimentos, claro
e também com essas palavras

que só são repetitivas aos olhos de quem a mensagem não é alvo.
sim, eu escrevo a você que amo você pois é quem importa receber.
não te soa sem sal
nem repetitivo pois a cada vez, para o meu amor, é diferente

como a cachoeira que deixa-se cair
como o rio que deixa-se passar

parece sempre o mesmo, mas é sempre outro
são outras águas novas a se despencar
outras chuvas a molhar-nos

e Deus nunca deixa o amor se esgotar na repetição.

se repetimos é porque sim somos um tanto limitados
limite, sim, na expressão

por que na arte de amar
essa Deus ao homem caprichou e limite

não creio que há.

amo-te e não me repito.
mas novamente te escrevo e te digo

amo-te meu amor por hoje comigo
amo-te amanhã com certeza
e depois de amanhã com outra natureza

mas pode deixar que amanhã
e depois de amanhã

voltarei a lembrar-te disto.

terça-feira, julho 7

instantâneos

Tá bom, eu me rendo, vou aos poucos perdendo o jeitão old fashion.

Passo a criar sem usar a caneta.

Meus dedos escolhem as letras, agora:
Ora no teclado do computador, ora nos botõezitos do celular.

São sim meus poemas instantâneos e com um público de conjunto unitário direcionado.
E me relutei, por isso, a publicá-los. Mas pensando bem, que mal tem?
E se não fosse este criativo a libertar sua criação de sua direção como eu poderia também aproveitar os cartões?

Com esta introdução, segue agora a nova classe de publicações,meus poemas instantâneos:

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não deixo de vir aqui,
como num assalto,
para compor uns poemitos a ti.

corro os dedos pelo teclado
sem escolher direito
e a deixar tudo registrado por aqui...

sou contente, a cada dia
e ainda mais com você

penso nos meus instantes ao teu lado
e sonho com o dia de multiplicá-los
sem precisar que eles tenham que esperar
por um avião de volta no final

ah o avião me traz de volta

mas um dia
sempre me trará você.

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segunda-feira, junho 29

As contas e os tiros

Pensava ela nas inúmeras contas ainda a pagar, acertos a fazer e naquela lista de objetos necessários e outros desejáveis que a impaciência não a fazia querer esperar por ter.

Sem nenhum outro problema grave, com o café da manhã gostoso e o maiô no corpo, saiu para cair na água, como habitualmente começa os dias em que a preguiça não toma conta do acordar.

Saiu da água depois dos 1300m percorridos - nem rendeu tanto a aula de hoje. E voltam as contas e os pepinos cotidianos (pé da cama descolou, transformador de voltagem para o microondas é urgente)a retirar seus pensamentos.

Ali, no vestiário, o encontro habitual que muda a perspectiva da semana. Lá vem ela, meio cabisbaixa, a faxineira a conversar. Ela gostava de bater papo com a moça, que tão zelosa cuidava dos alunos quase como extensão da família e arrumava com gosto o lugar sempre meio empoçado...

--- Meu marido morreu. Tomou dois tiros. Faz vinte dias. Agora, estou parcelando o custo do enterro em 36 vezes.

A notícia toda a chocou. Pensou tanto.

Mas quanta injustiça para quem trabalha tanto. Para quem acorda às 4h30. E chega em casa depois das 19h. E demora mais de duas horas por dia dentro de um ônibus. E ganha menos que os 10% do gasto do enterro, que teve de dar como entrada, assumindo outra dívida.

Ela, calada, resolveu que dali por diante não ia mais reclamar de contas.

E, de algum jeito, iria ajudar a faxineira com alguma daquelas prestações.