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terça-feira, maio 26

pesados e te olham

meus olhos ainda estão pesados
pelas lágrimas que ontem
deixaram cair

mas hoje eles se
despertam
e se esforçam por levantar-se

por que querem estar
abertos

para ver-te
outra vez.

domingo, abril 26

como uma fatia de bolo

Ela estaciona o carro desnecessariamente distante do mercado.
Desce no meio da chuva fina com sacola e lista de compras nas mãos. Não se importa, precisa respirar aquele ar de grama molhada e pensar um pouco.

Começa a espera, que vai se renovar a cada despedida. Ela sabe disso. Esperava por isso. E continua esperando.

Mas não tem melancolia no seu olhar.
Ela passa os olhos pela receita que tem nas mãos. Uma fatia de bolo depende de todos aqueles ingredientes. Depende das mãos dela, do carinho que põe ao misturar cada iten, depende da sua habilidade, da batedeira, do calor do forno.

Depende da sua atenção, de que ela não esqueça no fogão.
Depende das vasilhas, da forma bem untada, do ponto da manteiga, do frescor da maçã e da validade da levedura.

Depende, principalmente, do tempo dela. Tempo para sair, comprar, voltar, preparar, esperar, cortar e enfim, finalmente o enfim, comer.

Uma só fatia de bolo e tantos minutos dependendo dela.

E não é assim a vida? Um eterno preparar-se para uma espera cujo objeto será consumido? Tantos melhores poetas já trataram da efemeridade do instante, da vida, do saborear-se. E que vou eu elocubrar?

Espero.

Sei que espero e sei pelo que espero.
Mas não me arranque tudo isso de uma vez.
Não me obrigue a perder algum detalhe, algum componente da receita.

A fatia de bolo deliciosa precisa de cada ingrediente, de cada etapa e de todos os minutos consumidos...



Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
CLARICE LISPECTOR

quinta-feira, abril 9

uivo

Não passava das cinco da tarde
e ela ouviu o ruído daquela ventania habitual
levantou, vestiu o vestido azul e saiu

tinha de ver o mar bagunçado
e deixar seus cabelos assim embaraçar
naquele uivo repetido, gostoso, quase harmônico

o dia estava triste
mas a alma dela vinha louca
louca de descobertas
louca de perceber-se
nova, outra vez
jovem, como sempre
madura, quase

e esse uivo
tão remiscente da infância
tão presente nos momentos
de pensar
esperar
e de pausa

agora era o marco que precisava
para dizer-se
minha vida ainda pode ser tudo

basta deixar
o vento me descabelar.

sorriu e olhou para o lado.
lá estava ele, quieto, suave, a lhe espiar.